O Luto consiste no processo de adaptação que restaura o equilíbrio pessoal e familiar face à perda de um ente querido. Perante a morte de uma pessoa significativa, este processo mostra-se necessário e essencial, para que o vazio deixado possa, a seu tempo, ser novamente preenchido. Este acontecimento tem um impacto devastador, e, por norma, é acompanhado de algumas reacções consideradas normais, como sentimentos de tristeza, raiva, culpa e solidão, sensações físicas como aperto no peito, o vulgar “nó na garganta”, fraqueza muscular e falta de energia, pensamento confuso, dificuldades de concentração ou esquecimento e comportamentos específicos, como distúrbios de sono, do apetite, isolamento social, agitação psicomotora e choro. Se, numa fase inicial, tentamos evitar o confronto com os factos, negando e revoltando-nos com o desaparecimento de alguém que nos é tão querido, eventualmente deparamo-nos com a realidade da perda, abrindo caminho para a última fase do processo de luto, a aceitação, na qual nos rendemos perante a morte e as suas consequências, atingindo a paz necessária à reorganização da vida familiar e afectiva. Enquanto adultos, somos capazes de compreender o Ciclo da Vida, integrando os conceitos de irreversibilidade, universalidade e não funcionalidade. Isto significa que sabemos que o conceito de vida se encontra intimamente ligado ao funcionamento de estruturas vitais, que nos permitem funcionar e existir enquanto seres humanos, mas que essa existência se encontra limitada no tempo, pelo que todos os seres vivos inevitavelmente têm de morrer, e, ainda, que o fim da vida é um factor permanente e não irreversível.

Quando falamos do Luto e da percepção da morte nas crianças, todos estes pressupostos deixam de existir, e deparamo-nos com diversos factores que influenciam a forma como a criança irá experienciar esta situação, nomeadamente a idade, nível de desenvolvimento, contexto familiar e cultural. Com o objectivo de proteger e salvaguardar o equilíbrio psicológico da criança, a sociedade actual pratica um estilo de vida que evita a aproximação do tema da morte, dificultando a tarefa de educar os mais novos para esta realidade humana. A verdade é que desde muito cedo, a criança apresenta competências para integrar este acontecimento, sendo extremamente importante que, gradualmente, comece a encarar a morte como parte da vida.

Entre os três e os quatro anos de idade as crianças associam a morte a uma fase de grande tristeza, uma vez que esta é a emoção que lhes é espelhada pelos adultos. Ainda não reconhecem a morte como irreversível, acreditando que é algo temporário e que a pessoa que morreu poderá renascer ou “voltar a acordar”. De acordo com a literatura, esta ideia é reforçada pelo facto de os desenhos animados apresentarem o retorno à vida após a morte, bem como devido às explicações que muitas vezes os pais dão às crianças, utilizando expressões como “foi fazer uma viagem”, “perdeu-se, “adormeceu” ou “foi descansar”. Isto pode alimentar o medo de morrer e de ser abandonado, causando grande ansiedade e confusão. Para ajudar a criança a elaborar o conceito de morte, pode ser útil fazer referência aos diversos momentos da vida quotidiana em que a morte se encontra presente, como por exemplo a perda de um animal de estimação. Os padrões de gestão emocional iniciam-se muito cedo, continuando geralmente até à idade adulta.

Entre os cinco e os nove anos de idade, a maioria das crianças começa a perceber que a morte é definitiva, no entanto concebe-a como uma eventualidade que pode acontecer aos outros, mas não ao próprio nem aos que lhe são significativos. Aos seis anos de idade, a criança apresenta tendência para personificar a morte, concebendo-a como efeito da acção de terceiros com o poder de causa-la no outro.

Só entre os nove e os doze anos é que a criança é capaz de interiorizar a morte como um fenómeno universal, irreversível e comum a todos os seres vivos. Para tal, é fundamental a aquisição de conceitos como a noção de constância, conservação, tempo e a distinção entre seres animados e inanimados.

Para ajudar na elaboração da perda é fundamental que, quando alguém morre, lhes seja dada uma explicação adequada acerca do motivo da morte, utilizando termos como “morrer” e “morte”. Como referido anteriormente, termos vagos apenas aumentam a confusão. Quando se trata da perda de um familiar, as crianças não devem ser excluídas, quando parentes ou amigos vêm confortar os adultos. O evitamento e o silêncio ensinam às crianças que a morte é uma assunto tabu, ao invés do incentivo para aprenderem a lidar com a perda. É importante que a criança aprenda a reconhecer, nomear, aceitar e expressar sentimentos, como raiva, tristeza e medo. Utilizar expressões como ”não chores”, “não fiques triste” ou “tens de ser corajoso” podem levar a criança a ter receio de desabafar. A forma como a criança se está a sentir pode não ser reconhecida, uma vez que os seus sentimentos se traduzem mais no comportamento do que em palavras. Em idades mais precoces, por não saber identificar e classificar o que sente, a criança expressa-se por meio do brincar, onde repete experiências passadas, fantasias e ansiedades. As manifestações de pesar podem ocorrer imediatamente após a perda ou passado algum tempo, e envolvem sinais e sintomas como choque e confusão, raiva (manifesta em pesadelos, irritabilidade e agressividade dirigida a outros familiares), medo intenso de perder o pai, a mãe ou outro familiar, regressão a estágios de desenvolvimento anteriores, insónias, perda de apetite, diminuição do desempenho escolar e vontade de estar com o falecido.

A perda de alguém significativo é um acontecimento de vida marcante, implicando uma transformação enorme nos diversos domínios de funcionamento da criança. Ao longo deste processo, o essencial, é que os pais se mantenham física e emocionalmente próximos da criança, dispostos a receber, conter e devolver afecto positivo.

Beatriz Abreu – Psicóloga @ WeCareOn