Na minha prática clínica muitas vezes cruzo-me com pessoas que vivem situações cuja problemática definem como “amor demais”.

 

 

São pais arrependidos. Sabe qual foi o problema? O problema foi termos desejado tanto um filho, que quando veio estragamo-lo. Amamo-lo demais. Foi mimo.

São adolescentes de coração partido. Eu não sei porque tenho esta coisa. As miúdas no geral não me interessam, mas com a M é diferente… Acho que quando gosto gosto mesmo! E depois é isto. Como é que vou viver sem ela?!

São mulheres em teias relacionais. Não sei como é que ele faz isto comigo! Eu chego lá cheia de força e digo que não quero mais, que não aguento esta vida. Que não é vida para ninguém. Mas depois vou perdendo a força. Parece que, não sei, fico fraca. Eu acho que não é medo, ou será? Não sei, fico confusa. Acho que o amo demais”

 

Mas não é deste tipo de “amar demais” que venho refletir hoje. O amor sobre o qual venho refletir hoje, é tipo de amor que se vive e constrói em toda uma vida. Ou melhor, venho falar de vidas inteiras dedicadas a amar e em que amar não foi excessivo, mas sim na dose certa. Venho falar daqueles que construíram uma vida a dois, que, por vezes, geraram uma família e que por motivos de força maior, um dos cônjuges não está mais presente.

 

Antigamente a palavra Amor tinha outro significado e vinha em formato de romance. As histórias eram pitorescas e, por vezes vinham em enredos bastante conturbados. Mas apesar das aventuras e maleitas de amor, acabavam, na sua maioria claro, em finais felizes. Casamentos prometidos que acabavam em amor ou amores impossíveis que acabam em casamentos. E o conceito de amor e amar era para a vida. Um conceito de eternidade. Eternidade essa que se quebra quando se perde um dos cônjuges. Perde-se para uma demência que leva a memória, para uma doença incapacitante ou para a morte.

E por mais que se esteja em alerta e em risco que a perda pode acontecer, nunca se está preparado efetivamente para esse momento. A quebra inimaginável da eternidade.

 

Aos netos, filhos, parentes, amigos e vizinhos dos amores de uma vida a dois, deixo aqui algumas orientações num processo tão sensível.

 

 

Ser compreensivo. Facilmente conseguirá se lembrar da dor de um desgosto de amor ou do término de uma relação. Imagina-se a esquecer a perda de alguém com quem se partilhou uma vida?

Estar atento. Numa fase inicial as rotinas e tarefas do dia a dia são as mais difíceis de dar resposta.

Acompanhar. A perda do cônjuge, de um companheiro (a) dá lugar a uma solidão dolorosa.

Estar disponível para a partilha. As recordações estão muito presentes e há uma necessidade de contar episódios passados com o ente querido.

Ser ouvinte. É uma fase de avaliação geral da vida, de introspeção.

Ser paciente. A reorganização emocional leva o seu tempo.

E, principalmente, ser menos exigente.

É um reaprender a estar e viver sem o outro; é uma luta como uma visão negativa da sociedade em relação ao idoso; é uma luta entre o passado e futuro; é um confronto com a própria mortalidade; é um perder de uma parte de si.

 

 

​Por Susana Pereira, psicóloga