Há momentos em que muitos de nós não temos alguém que nos dê colo, que nos escute e simplesmente compreenda o que estamos a sentir, sem julgamentos, sem respostas certas ou erradas para o que deveríamos ou não fazer/sentir.

Nesta situação, nestes momentos, o que fazer, como nos consolarmos, quando nos sentimos sozinhos e desamparados?

É muito dura a sensação de sentir que aqueles com quem convivemos e que amamos não se apercebem de nós, daquilo que estamos verdadeiramente a viver em termos emocionais.
Sofremos muito quando não nos sentimos acolhidos, entendidos, escutados… Reconhecidos na nossa humanidade (não temos só coisas boas dentro de nós, sentimos um mar de afetos positivos e negativos que precisam de se expressar, senão ficam presos no corpo, acorrentados por palavras que não fazem sentido, que reprimem, que renomeiam, que calam…).

Assim, como sobreviver neste campo afetivo-relacional árido? Como ser sincero e autêntico com o outro, quando nos sentimos ignorados no que há de mais profundo da nossa experiência subjetiva?

De repente, damo-nos conta num certo momento da vida que criamos raízes em terrenos pouco férteis. Somos pessoas ou coisas? Somos vistos e vemo-nos como pessoas inteiras? Ou constantemente permitimos que nos magoem a alma e depois ficamos sem compreender as nossas reações raivosas?

A minha proposta com este pequeno texto é que reflitamos sobre esta raiva construtiva que nasce como um grito de amor próprio, que urge ser socorrido, para que possamos sobreviver e viver com mais empatia, atenção, carinho e cuidado. Afinal, sabemos compreender as nossas reações? Sabemos perceber quando são elas o sinal do que há de mais verdadeiro em nós?

Porquê tanto medo de nos ouvirmos a nós mesmos? De enfrentar o que dói, para a partir daí dar um salto e crescer?

Talvez um dia saibamos que não vale a pena esperar pelo gesto afetivo que achávamos que deveria vir do outro. Pois, a responsabilidade de cuidar de nós mesmos é só nossa.

Este cuidado requer muita dedicação e é das experiências mais recompensadoras e significativas que podemos empreender.

Marcela Alves – Psicóloga @ WeCareOn