Tendo em vista a minha experiência como psicoterapeuta e os anos de escuta sobre as questões que nos afligem e nos estimulam, pensei em dedicar este espaço de comunicação livre para falar um pouco sobre temas mais subjetivos, a fim de estabelecer um contato que favoreça a construção de sentidos. Afinal, de modo geral a busca por terapia é movida por uma pergunta que angustia, para a qual não temos resposta, ou se a temos não conseguimos aplicá-la.

 

Então um tema que muito me envolveu ao construir esta breve comunicação disse respeito à pressão atual que vivemos em prol de demonstrar ao mundo que somos felizes.

 

Temos que conseguir tudo o que almejamos (ou achamos que desejamos com base nas expectativas do outro) e da melhor maneira possível, sem, em alguns casos, poder modificar antigos planos e sem se angustiar com este processo. Como se a nossa realização estivesse garantida pelo simples motivo de termos cumprido um script predestinado por nós ou por alguém.

 

Contudo, será que nos perguntamos o que queremos ou como nos sentimos de verdade? Prestamos atenção ou damos ouvido àquela sensação muito particular de desconforto, que brota do nosso lado mais espontâneo, aquele que desponta sem ser convidado e que, por vezes, imediatamente o calamos pela nossa necessidade de aceitação social?

 

Idealizamos que a capacidade de lidar com a imprevisibilidade da vida ou dos nossos desejos dispensaria o questionamento sobre o rumo que tem sido tomado, as escolhas que temos feito, as relações que temos vivido e o modo como as temos vivido.

Quantas vezes nos sentimos infelizes, mas como estamos no suposto caminho certo consideramos um disparate mudar, questionar.

Noutras vivemos diferentes experiências desenfreadamente (nos escondemos nos impulsos) para não termos que refletir sobre nada, sobre o que dói ou sobre o que alimenta a alma.

Se pudéssemos nos dar conta sobre o modo como temos desempenhado nossas atividades quotidianas, como nos classificaríamos? Quais os órgãos dos sentidos mais usados?

 

Vemos muito, falamos muito, ouvimos muito, engolimos muito, tocamos (cuidamos) demais ou sentimo-nos carentes destes ou de algum destes contatos? Como nos descreveríamos? Por quê? O que está a faltar? O que tem sobrado? Onde está o desequilíbrio?

 

Odiamos mais vezes que amamos, amamos e odiamos e não entendemos o que se passa connosco, sentimo-nos sós, tristes, rejeitados… Que tempestade emocional é esta que nos afeta e que não conseguimos controlar?

 

Nada é mais difícil do que reconhecer que apesar do outro não ser necessariamente mau não nos sentimos bem. E como falar disto? O que isto tem mesmo a ver com o outro? O que isto tem a ver com o si mesmo?

 

Pois é justamente o que alimenta e machuca a alma que deve ser seriamente levado em consideração quando nos deparamos com a problemática da competência em lidar com a vida e, portanto, em nos adaptar aos diferentes momentos.

Portanto, meu convite é que você se descubra, ao menos para sentir-se em sua própria pele, usufruindo da sua força e da sua sensibilidade!

 

Por Marcela Alves, psicóloga @ WeCareOn