Hoje em dia há algumas pessoas que por diversos motivos foram obrigadas a regressar para casa dos pais, depois de viverem sozinhas e/ou com um parceiro.

A maioria das pessoas, quando entra no mundo do trabalho, tem por objetivo, sair de casa dos pais. Ganhar independência, ter a sua própria casa, as suas rotinas e os seus horários sem ter de dar justificações aos pais. Quando assim o faz, sente que conquistou a sua autonomia, a sua liberdade, nem põe em consideração muitas vezes, voltar para os pais.

Porém, existem vários fatores, quer seja falta de condições económicas ou relacionamentos que não dão certo, que leva a equacionar ter de voltar para casa dos pais. E, ao ter de tomar essa decisão, surgem sentimentos de perda de independência, de derrota e receio do estigma social.

Na realidade, regressar para casa dos pais, é a última coisa que quer fazer, todavia, se conseguir ver a experiência como um momento temporário de crescimento e aprendizagem, poderá sair de toda a situação com um sentimento positivo.

 

1 –  Como conjugar liberdade, autonomia, responsabilidade?

 

A coach Aldina Costa  responde-nos assim:

 

É um desafio! Não o é especificamente, porque se trata do regresso a casa, mas, cultivar e praticar conscientemente este valores, questionar, aprimorar e aprendê-los, se necessário, é pura evolução. Os valores humanos são necessários e importantes porque são uma espécie de bússola, são a estrada e a direção que nos conduzem. Não é tarefa fácil defini-los, classificá-los ou tão pouco explicar, o que eles são; mas ao longo dos anos de trabalho e vivência percebi que alguns estão muito próximo dos sentimentos e emoções, outros de vontades, outros são atitudes e gestos, alguns são ações e alguns fazem parte da essência humana. De facto a maioria de nós, pode sentir, perceber ou compreender quando pensa neles.

Assim temos:

 

– Alguém que volta para casa dos pais terá tendência para sentir falta de liberdade porque perdeu a sua autonomia. No entanto pode agradecer pela liberdade que tem de fazer as suas escolhas com sabedoria e responsabilidade, acolhendo as consequências das suas atitudes. É expectável que crie consciência que algo que lhe acontece é da sua responsabilidade. Ser responsável significa parar de culpar, o que ou quem quer que seja. Implica assumir o controle de si mesmo e da sua existência, e em responder pronta e eficientemente aos desafios que se apresentam.

 

– Pode também se questionar que nível de liberdade mais preza. É a liberdade física de ser quem é, sem se importar com o que os outros pensam de si? É a liberdade emocional de não ter que dar satisfações sobre os seus sentimentos? É a liberdade de expressão que lhe permite expor-se sem constrangimentos? É a liberdade de espírito, consciente de quem é? Ao responder a estas questões, as respostas irão permitir perceber o seu grau de liberdade bem como as áreas em que precisa de trabalhar para se libertar.

 

Chegará também o dia em que se libertará da casa dos pais, e nessa altura, congratule-se pelo que evoluiu e pelos sectores da vida pelos quais é responsável. Reconquistou a sua autonomia. Avalie outras áreas nas quais considera que está pronto a exercer novas responsabilidades e prontifique-se a colocar a sua decisão em prática.

Almeje ser capaz de cuidar de questões cada vez maiores, partindo de si mesmo.

 

 

2 – Como lidar com a auto estima quando julgam que isto é para elas um falhanço? 

 

A psicóloga Daniela Esteves  dá-nos umas dicas:

 

Todos nós cometemos erros ou sofremos com os desafios da vida, porém é a sua própria atitude para consigo que vai ser determinante como vai viver o regresso a casa dos seus pais.

 

Seja a sua melhor amiga: se normalmente costuma ser exigente e crítica, provavelmente irá sentir esta situação como um fracasso. Neste caso, pratique a autoaceitação de que é um ser humano sendo perfeitamente normal errar, aliás, é uma das formas de aprendizagem. E, como está a passar por uma mudança,  precisa agora é do seu próprio apoio e carinho, para poder regressar à sua autonomia. O que diria se a mesma situação acontecesse a uma amiga? Não iria reconfortá-la e apoiá-la?

 

Encare a situação como temporária: muitas vezes ficamos tristes ou mesmo chateadas porque temos pensamentos de permanência. Achamos, que o momento será permanente e, que teremos de viver assim infinitamente. O que isto tem a ver com a autoestima? O hábito de pensar e verbalizar a permanência das situações, provoca a dúvida sobre o valor próprio,  a eficiência na resolução dos problemas e por fim a crença do merecimento da situação entre mãos, como por exemplo: “não consigo sair daqui, vou ficar aqui para sempre”. Tente estar no momento, não se preocupe tanto com o passado ou o com o futuro e veja cada dia como uma nova oportunidade de fazer o seu melhor.

Estar no presente aumenta a autoconfiança porque permite ver que as experiências passadas  não tem de se repetir, podendo assim criar um futuro melhor, independentemente do que aconteceu antes.

 

Avalie a qualidade dos seus pensamentos, emoções e comportamentos:  apesar das circunstâncias, é nesta altura que tem de esforçar-se para ter uma boa qualidade de pensamentos! São eles que afetam as suas emoções e ultimamente definem as suas ações. Motive-se com pensamentos que podem levar mais próximo da direção que quer tomar na sua vida, como: “Esta situação está a chegar ao fim”, “Confio nas minhas capacidades”, “Encontro soluções para todos os problemas” –  certamente irá gerar comportamentos os quais ficará mais realizada no final do dia.

 

Trabalhe as áreas da sua vida que quer melhorar  – O facto de ter regressado a casa dos pais não significa que irá desresponsabilizar-se pela sua vida. É essencial para a sua autoestima que tenha uma atitude proactiva para refazer a sua vida e que pode passar por primeiro tomar conta de si em todos os aspetos.  Que áreas da sua vida precisam melhoramento? Estilo de vida? Relacionamento consigo mesmo? Carreira e formação? Relacionamento com os outros? Etc.

 

Esteja grata e valorize-se: Há cada vez mais estudos que indicam que o sentimento de gratidão ajuda-nos a lidar com os contratempos da vida e só o facto de ter a casa dos seus pais e a disponibilidade deles para poder regressar já é por si algo a agradecer! Para praticar a gratidão requer a capacidade de apreciar e amar a sua própria existência, por isso agradeça a si mesma por conseguir ultrapassar as vicissitudes da vida nem que isso implique regressar ao ninho (temporariamente).

 

 

 

3 – E como lidar com a pressão social que possa ver estas pessoas como «fracassadas»?

 

A psicóloga Loes Nooren  dá-nos a sua visão:

 

Simplesmente dizer que não deve dar importância àquilo que os outros pensam, é mais fácil de dizer, do que fazer, mas, se pensar nos tópicos que se seguem pode tornar-se mais fácil.

– Faz parte da natureza humana formar opiniões sobre tudo e todos. O nosso instinto é colocar os outros numa espécie de caixinhas. Não leve a peito. Isto acontece automática – e inconscientemente. Na maioria das vezes, nem é intencional.

– Esta categorização que fazemos, depende da opinião que temos sobre nós próprios. Isto é, no fundo diz mais sobre a pessoa que categoriza/julga do que sobre a pessoa que é categorizada/julgada.

– As pessoas têm maior tendência a julgar aquilo que não conhecem. Não se esconda. Fale sobre isso e explique as especificidades da sua situação. Vai ver que os outros vão compreender e descobrirá que há muitas mais pessoas na mesma posição.

– Se a sua atitude for positiva, os outros terão menos tendência a considerá-la um fracasso. Foque-se nos aspetos positivos do seu regresso a casa: é uma oportunidade para passar mais tempo com os seus pais, poupará dinheiro e, estará num ambiente seguro onde terá a oportunidade de repensar o que quer fazer da sua vida. E lembre-se: é temporário. Trata-se de um período de transição.
4 – Como se recomeça um relacionamento perante este novo cenário (em casa dos pais)?

 

A psicóloga Inês Andrade Fraga dá-nos a sua opinião:

 

Voltar às rotinas, aos horários, às regras, à mobília que não é nossa, não é fácil, mas com o tempo vai-se tornando menos complicado.

 

– Lute pela sua vida, construa os seus projetos, conheça pessoas novas e não tenha receio de um novo relacionamento, mesmo estando em casa dos seus pais.

 

Quando essa oportunidade surgir não esconda aquilo que é a sua vida neste momento. Ser sincera é a melhor forma de garantir que a relação é genuína e não que têm problemas mais tarde. Ambos devem viver esta situação como uma oportunidade para aproveitarem o que o mundo lá fora tem para oferecer: passeios, cinemas, jantares, momentos a dois…sejam criativos, e, acima de tudo, aproveitem a inocência de um início de uma nova relação.

 

O que digo ou faço quanto aos meus pais? Procure ter uma relação de confiança. Claro que terá de lhes dar mais atenção e respeitar algumas exigências, mas, se houver confiança, compreenderão as suas saídas. Os seus pais poderão, de início, não concordar que comece um novo relacionamento, principalmente se já a viram magoada e desiludida com relações anteriores, no entanto, converse com eles e explique o que sente, se sentirem que está a ser sincera e que esta nova pessoa na sua vida lhe faz bem, acabarão por aceitar.

 

– Sem pressas e sem pressões, faça o que para si é mais correto, não tome decisões precipitadas nem comece um novo relacionamento só para não estar sozinha, pelo contrário, primeiro esteja segura de si própria quanto ao que quer para a sua vida e para o seu futuro e, só depois, pense em envolver outra pessoa nesses planos.

 

 

 

5 – Quando há filhos, como separar a autoridade da mãe face aos avós?

 

A psicóloga Cristina Reis  refere que com o regresso a casa dos pais, existe uma tendência para a infantilização dos filhos pela ideia de que poderão não estar preparados para educar os seus próprios filhos ou devido ao desejo inconsciente de voltarem a ser pais, caindo assim na tentação de educar os seus netos como filhos. Sem dúvida que o papel dos avós é muito importante para a criança, no entanto, é essencial que este esteja bem definido entre todos.

 

O ideal nestas situações assenta em estratégias assertivas:

 

– Reconheça e agradeça aos seus pais mostrando compreensão e respeito pelo apoio prestado.

 

– Seja claro em relação ao papel dos pais, que devem cuidar dos filhos da mesma forma que os seus pais cuidaram de si, assim como o papel dos avós é criar laços afetivos e de suporte com os seus netos, não significando que são responsáveis pela sua educação.

 

– Se os pais existem e se encontram bem física e mentalmente, será deles a responsabilidade da educação dos seus filhos, contudo, isto não tem que gerar constrangimentos. Explique aos seus pais de forma afetiva, mas assertiva, que é importante para o desenvolvimento saudável das crianças que os avós sigam a mesma linha de educação que os pais, nunca desautorizando os filhos em frente aos seus netos.

 

– Em nenhuma situação permita que os seus pais destruam a imagem que o seu filho tem de si pois a “alienação parental” tem efeitos nefastos no desenvolvimento infantil.

 

– Defina quem tem autoridade e que tipo de autoridade cada um tem, deixando claro que os netos devem respeito e obediência aos seus avós, seguindo a linha de educação que os pais aplicam.

 

– É comum a ideia de que os avós sabem educar melhor que os pais, no entanto, é importante alertar-lhes que a educação atual envolve desafios que outras gerações não enfrentaram e nos quais os pais estão mais à vontade do que os avós, como o uso das tecnologias, por exemplo.

 

– Acima de tudo, converse com os seus pais evitando mal entendidos e articule frequentemente com eles para que possam estar todos em sintonia, proporcionando um ambiente saudável e estável para as crianças.

 

 

Texto escrito pela Equipa WeCareOn

Aldina Costa, Cristina Reis, Daniela EstevesInês Fraga e Loes Nooren