Inicialmente, a dependência (alcoolismo) não era reconhecida como uma doença cerebral. No entanto com o desenvolvimento nas áreas da Neurociência e da Medicina, a dependência foi declarada como um transtorno da função cerebral e classificada pela OMS como transtorno mental e comportamental (WHO, 1993).

 

“Oiça lá ó senhor vinho, vai responder-me, mas com franqueza: porque é que tira toda a firmeza a quem encontra no seu caminho? Lá por beber um copinho a mais até pessoas pacatas, amigo vinho, em desalinho vossa mercê faz andar de gatas!…” (Amália Rodrigues)

 

A história do Alcoolismo

 

Desde os tempos mais remotos que são conhecidos os efeitos nocivos causados pelo uso de bebidas fermentadas. Elementos arqueológicos e bibliográficos, entre outros, permitem-nos pensar que a utilização das bebidas alcoólicas pelo Homem e o conhecimento dos seus efeitos no indivíduo remontam a algumas dezenas de milhar de anos antes da era Cristã. Uma das mais antigas referências diz respeito a um baixo-relevo feito, muito provavelmente, 30 000 AC. Pensa-se que no período paleolítico o Homem tomou conhecimento, de forma acidental, dos efeitos da ingestão do produto fermentado a que o mel, recolhido e armazenado em recipientes artesanais, dera origem. No período neolítico, a cerveja e o seu fabrico eram já do conhecimento do Homem.

 

Egípcios, gregos e romanos são exemplo de povos que conheceram e desenvolveram as artes do fabrico de bebidas alcoólicas, bem como os efeitos da sua utilização. Referências mais ou menos ricas e completas povoam as obras artísticas e literárias que estes povos nos legaram. A destilação do vinho, dando origem a bebidas mais alcoolizadas, parece ter-se generalizado na Europa a partir do século XI, tomando em França, por exemplo, extraordinário vulto com as facilidades concedidas pelo Estado aos “destiladores”.

 

Embora os efeitos do álcool sejam conhecidos desde a Antiguidade, os fenómenos do alcoolismo crónico eram, na altura, mais ou menos ignorados. Só a embriaguez era referida entre as perturbações ligadas ao uso de bebidas alcoólicas. (Mello, Barrias & Breda, 2001).

 

O surgimento do Alcoolismo

 

Se até ao século XV o consumo de álcool não tinha levantado problemas, estando associado em algumas sociedades a conceções de saúde, e noutras a rituais religiosos, curativos e mágicos, a partir desta data verifica-se um aumento do consumo de bebidas alcoólicas, levando ao surgimento dos primeiros registos de intoxicação por álcool.

 

Durante o século XVIII aparecem as primeiras tentativas de moderar o consumo excessivo de álcool (alcoolismo). Em Inglaterra o parlamento aprova a repressão da embriaguez. E nos Estados Unidos da América são criadas leis para controlar o crescente número de pessoas embriagadas. São criados impostos sobre o álcool e iniciam-se tentativas de conceptualizar do estado de embriaguez.

 

O Alcoolismo crónico

 

Em finais do século XVIII e princípios do século XIX o alcoolismo deixa de ser visto como um vício (a embriaguez), passando o termo a ser utilizado com o significado de alcoolismo crónico e entendido como doença. Para esta mudança de paradigma contribuíram os trabalhos do Médico e Psiquiatra norte-americano Benjamin Rush, em 1785, e do Médico inglês Thomas Trotter, em 1804, tendo-se devido a este último a primeira descrição do Delirium Tremens (estado de hiperatividade confusa e desorganizada, que se segue normalmente a um excessivo abuso de bebidas alcoólicas).

 

É a partir do século XIX, com a Revolução Industrial, período de grandes transformações sociais, que o consumo do álcool aumenta. O crescimento da sua produção e consequente acesso, as mudanças que então ocorriam com os demais problemas sociais associados, entre outros fatores, fizeram com que um maior número de pessoas consumisse álcool.

 

Se até então os problemas sociais causados pelo alcoolismo eram vistos como uma questão moral (já que a maioria parecia beber moderadamente), a partir do momento em que a situação se alterou, constatando-se a perigosidade dos efeitos do álcool sobre a saúde pública e as suas repercussões no tecido social, o consumo do álcool, ou pelo menos o seu abuso, passa a ser um problema de saúde. Com efeito, no século XIX dão entrada nos hospitais psiquiátricos os primeiros alcoólicos, sendo considerada esta dependência como causa da doença mental (Balsa, Vital & Pascueiro, 2011).

 

 

Álcool e Bebidas Alcoólicas – o que são?

 

Quando se fala em álcool referimo-nos à substância etanol ou álcool etílico, principal componente das bebidas alcoólicas. O álcool é um produto da fermentação de açúcares de numerosos produtos de origem vegetal (frutos, mel, tubérculos, cereais) sob a influência de microrganismos, nomeadamente leveduras (Mello, Barrias & Breda, 2001). Definem-se por bebidas alcoólicas as aquelas que, como o nome indica, contêm álcool (UNODCCP, 2000).

 

Que tipo de bebidas alcoólicas existem?

 

As bebidas alcoólicas podem ser fermentadas (vinho, cerveja), quando se obtêm por fermentação alcoólica dos sumos açucarados pela ação de leveduras, ou destiladas (aguardentes, licores), quando resultam da destilação do álcool produzido no decurso da fermentação (Balsa, Vital & Pascueiro, 2011). Através de um processo de evaporação (seguida de condensação pelo frio) das bebidas fermentadas, podem obter-se bebidas mais graduadas) (Mello, Barrias & Breda, 2001).

 

A graduação alcoólica de uma bebida é definida pela percentagem volumétrica de álcool puro que contém, por exemplo, um vinho de 10º significa que 1l contém 10% de álcool, ou seja, 100ml ou 80g de álcool. As bebidas fermentadas geralmente têm uma graduação alcoólica que vai até um máximo de 13 a 14%, e os valores para as destiladas variam, normalmente, entre os 15 e os 75% (Mello, 2001).

 

 

O álcool é uma droga?

 

Encontram-se na literatura diferentes definições de droga, todas elas associadas à ciência que a define.  Contudo, apesar das divergências entre autores, um ponto emerge como consensual: a constatação de que o uso de drogas acompanha a evolução e as trajetórias histórico-culturais dos povos desde os tempos remotos (Fonte, 2006).

 

A história das drogas é a história da humanidade. Fizeram parte essencial da sua cultura, dos seus rituais religiosos, das suas relações humanas… evoluindo ao mesmo tempo que os homens e as mulheres que as consomem.

 

A amplitude do termo “droga” reflete esta longa evolução, fazendo referência a um elevado número de substâncias com distintos efeitos sobre a perceção, o pensamento, o estado de ânimo ou as emoções, com diferente capacidade para produzir dependência e com significados diferentes para aqueles que as consomem (SICAD, 2019).

 

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) uma droga é “qualquer substância, natural ou sintética, que, pela sua natureza química afeta a estrutura e funcionamento do organismo”. Pelo que pode-se dizer que o álcool está incluído nesta categoria, pertencendo ao grupo das drogas lícitas, isto é, cuja venda e consumo são permitidos no nosso país (ainda que com limites impostos).

 

Que tipo de droga é o álcool?

 

Pela sua ação sob o Sistema Nervoso Central (SNC), o álcool é considerado uma droga inibidora, uma vez que diminui a atividade do SNC provocando uma sensação de relaxamento.

 

À sensação inicial de euforia e de desinibição, segue-se:

  • Um estado de sonolência;
  • Turvação da visão;
  • Descoordenação muscular;
  • Diminuição da capacidade de reação;
  • Diminuição da capacidade de atenção e compreensão;
  • Fadiga muscular, etc (SICAD, 2019).

 

O álcool atua bloqueando o funcionamento do sistema cerebral responsável pelo controlo das inibições. Estas, ao verem-se diminuídas, fazem com que o indivíduo se sinta eufórico, alegre e com uma falsa segurança em si mesmo que o poderá levar, em determinadas ocasiões, a adotar comportamentos de risco.

 

Após a ingestão de grandes quantidades, o álcool chega rapidamente ao cérebro e provoca os sintomas da embriaguez nos seus mais variados aspetos. As manifestações mais importantes são:

  • Comportamentos desadaptados, como por exemplo os impulsos sexuais desinibidos ou agressivos;
  • Sensibilidade emocional;
  • Deterioração da capacidade de raciocínio e da atividade social;
  • Fala premente;
  • Descoordenação;
  • Instabilidade motora;
  • Rubor facial;
  • Mudanças no estado de ânimo;
  • Irritabilidade;
  • loquacidade e falta de atenção.

 

A conduta habitual do indivíduo pode acentuar-se ou alterar-se. Por vezes, aparecem fenómenos de amnésia durante a intoxicação.

 

Existem fatores, que poderão influir de forma acentuada nas características da embriaguez, como:

  • A existência de tolerância;
  • O tipo do álcool;
  • A quantidade ingerida;
  • A rapidez do consumo;
  • A ingestão simultânea de alimentos;
  • As circunstâncias ambientais;
  • a personalidade do consumidor ou o consumo de algum medicamento

 

Os casos mais graves de intoxicação levam à perda de consciência, ao coma e inclusivamente à morte por depressão cardiorrespiratória.

 

Dependência do Álcool

 

Conforme já mencionado, o consumo de bebidas alcoólicas representa um velho problema da sociedade, não obstante os graves prejuízos provocados ao organismo dos indivíduos que consomem esta droga.

 

As bebidas alcoólicas estão presentes em praticamente todas as ocasiões sociais, devido ao facto de uma das suas principais características mais populares ser o favorecimento da desinibição, resultado da ação inibidora no sistema nervoso central (Haes, et al., 2010; Zahr, et al., 2011). Assim, o consumo de bebidas alcoólicas é sinónimo de alegria, lazer e relaxamento (Pádua, 2010; Simon, 1974).

 

Portugal, e praticamente todos os países europeus do mediterrâneo, é um país de longa tradição vitivinícola. O consumo de vinho incorporou-se nos nossos rituais e tradições e faz parte da chamada “dieta mediterrânica”. Exercendo uma poderosa influência em diversos sectores económicos de grande importância: turismo, restauração, lazer, indústria produtora, etc. Foi nesta cultura europeia mediterrânica, que ao longo dos séculos se integrou socialmente a produção, transformação e comercialização vitivinícola (Carvalho, 2002 cit. In Balsa, Vital & Pascueiro, 2011). Estes são alguns dos fatores que levam a que por vezes sejam criados padrões de alcoolismo.

 

Álcool – que consumos?

 

O consumo de álcool é conceptualizado dentro de um contínuo, que vai desde a abstinência à dependência. Um mesmo indivíduo pode apresentar diversos tipos de consumo ao longo do tempo. No contexto da classificação dos Problemas Ligados ao consumo de Álcool, a Organização Mundial de Saúde considera as seguintes tipologias: Abstinência, Consumo de Baixo Risco, Consumo de Risco, Consumo Nocivo, Dependência (Babor, Campbell, Room & Saunders, 1994).

 

De referir ainda uma tipologia de consumo que tem vindo a aumentar nos últimos anos: o Binge Drinking. Esta tipologia consiste no consumo esporádico excessivo de 5 a 6 bebidas no homem e de 4 a 5 bebidas na mulher, numa única ocasião e num espaço de tempo limitado, estando associado a uma maior probabilidade de sofrer consequências adversas (WHO, 2002).

 

As tentativas para compreender a criação e desenvolvimentos da dependência (dupla habituação fisiológica e psicológica ao álcool) vão, cada vez mais, situando os seus alicerces em conhecimentos neurobiológicos e bioquímicos (efeitos do álcool sobre metabolismos, interação do álcool com os neurotransmissores cerebrais, efeito sobre as membranas e receptores, alteração das respetivas composição e funcionalidade). A sintomatologia da síndrome de abstinência ou privação põe em relevo modificações bruscas induzidas nos sistemas vários de compensação cerebral criados pelo consumo continuado (Mello, Barrias & Breda, 2001).

 

Alcoolismo e suas consequências

 

Portugal encontra-se no topo da lista dos países com maior consumo de álcool quer ao nível europeu, quer ao nível mundial. Com um consumo por pessoa com mais de 15 anos de 12.9 litros de álcool puro por ano, prevendo-se um aumento do consumo. Entre os consumidores de álcool, 16.9% apresenta um consumo excessivo, 0.9% um consumo de risco e 2.1% uma dependência do álcool (WHO, 2014).

 

Tem sido repetidamente observada a relação entre o consumo de álcool e mais de 200 doenças, com consequências graves ao nível individual e social. O consumo de álcool é responsável por 3,3 milhões de mortes por ano (5.9% de todas as mortes), associado a acidentes rodoviários, doenças cardiovasculares, doenças gastrointestinais, diabetes, cancro, traumatismos, morte fetal, cirrose, etc. (WHO, 2014).

 

O cérebro é um dos principais alvos da ação do álcool. Estudos têm vindo a demonstrar que o álcool é um neurotóxico, com efeitos diretos sobre as células nervosas. Este aspeto é particularmente relevante nos adolescentes e jovens tendo em conta que o desenvolvimento do cérebro só atinge a sua maturação completa cerca dos 25 anos (U.S. Department of Health and Human Services, 2000). Além disso existe uma imaturidade do sistema biológico, que não está apto para degradar o álcool, potenciando os danos cerebrais e défices neurocognitivo, com implicações na aprendizagem e no desenvolvimento intelectual (Zeigler et al., 2005).

 

Estudos têm vindo a revelar que adolescentes com episódios de embriaguez apresentavam diminuição do volume cerebral com implicações na aprendizagem, raciocínio, atenção, tomada de decisão e memória (Giedd et al., 1999; Giedd, 2004, cit. in Guia Orientador da Intervenção Psicológica nos Problemas Ligados ao  Álcool, 2016).

 

 

Alcoolismo: existe tratamento?

 

A dependência química de substâncias é uma perturbação caracterizada por um risco de longa duração e que envolve sistemas motivacionais do cérebro (Hyman & Malenka, 2001). Inicialmente, a dependência não era reconhecida como uma doença cerebral, no entanto com o desenvolvimento nas áreas da Neurociência e da Medicina, a dependência foi declarada como um transtorno da função cerebral e classificada pela OMS como transtorno mental e comportamental (WHO, 1993).

 

Entre as características mais insidiosas da dependência de qualquer substância, o maior obstáculo é o desejo recorrente de continuar a consumir, mesmo após um longo período de abstinência. A pessoa experimenta o efeito de uma substância, satisfatória ou de reforço, e ativa circuitos cerebrais específicos, capazes de tornar o comportamento frequente. Em indivíduos com dependência instalada, a capacidade de suprimir este desejo está comprometida. A vulnerabilidade de recaída constitui a característica primária da dependência e, por isso, tem sido o principal alvo para a intervenção farmacológica ( WHO, 2004; Kalivas & Volkow, 2005). A substituição de uma substância que estimula as vias de recompensa encefálicas por outra menos tóxica e viciante é o principal passo na prevenção de recaídas (Arora & Kaur, 2009).

 

Um dos aspectos mais difíceis de controlar na dependência do álcool é a manutenção dos sintomas de abstinência após a retirada e a prevenção de recidivas (Valério, 2014), sendo que, a par do tratamento farmacológico a intervenção psicoterapêutica desempenha um papel fundamental no sucesso da intervenção.

 

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Beatriz Abreu – Psicóloga clínica WeCareOn