A automutilação inclui qualquer comportamento intencional que envolva uma agressão direta ao próprio corpo, sem que o objectivo seja o suicídio. Este comportamento, surge com maior incidência durante a adolescência. Que sendo um período de transição entre a infância e a idade adulta, que está associada a mudanças a nível psicológico, social, cognitivo e físico, torna-se a fase de desenvolvimento propícia.

 

Estes comportamentos surgem, na maioria das vezes, como resposta a tentativas de lidar com as emoções negativas, como a frustração, desvalorização e rejeição.

 

Pode existir, igualmente, devido a uma desorganização interna que ao ser ignorada venha a evoluir, e se manifestar dentro de um quadro patológico, em diferentes intensidades.

 

 

automutilação

 

Caraterísticas dos adolescentes que se mutilam

De uma forma geral o adolescente que se automutila tem baixa auto-estima. Manifestando dificuldades ao nível das relações interpessoais. Sente-se muitas vezes, sozinho, angustiado, sem conseguir lidar com as situações que percepciona como geradores de stress. Utilizando a mutilação como uma espécie de “analgésico emocional”.

 

Muitos adolescentes revelam grandes dificuldades em exteriorizar as suas emoções e pensamentos. Não conseguindo verbalizar, com ninguém, os seus problemas. Estes vão-se acumulando e aumentam os níveis de angústia e frustração, levando os adolescentes a adotarem “comportamentos de alívio da dor emocional”. Como os cortes, por exemplo. Outros automutiladores magoam-se como forma de autopunição, por sentirem que são inúteis e falhados.

 

Ao sentir dor física, o nosso cérebro liberta neurotransmissores que “socorrem a dor”, as endorfinas. Estas substâncias químicas, em excesso, podem causar dependência.

 

Estes comportamentos não são controláveis pelo adolescente, que sente, em simultâneo, necessidade de o praticar e vergonha/culpa, após o fazer.

 

Como forma de esconder ao máximo o resultado do seu comportamento (feridas, cicatrizes ou outras marcas), o adolescente evita qualquer atividade em que seja necessário a exibição do corpo. Como ir à praia ou a prática de desportos.

 

 

Causas da Automutilação na Adolescência

 

Por vezes os adolescentes sentem que a violência contra si próprio é o último meio que têm de controlo face a uma situação ou problema. Como por exemplo preocupações, medos, tristezas e conflitos com elementos do seu grupo de pares. Basicamente é uma troca da dor emocional, que não conseguem controlar, para uma dor física que conseguem ter controlo.

 

Muitas vezes estes adolescentes estão no meio de conflitos familiares ou parentais. São vítimas de humilhações pelos pares ou rejeitados pelos colegas, mas sentem-se incapazes de verbalizar a dor sentida. Essa dificuldade de expressão acaba, em muitos casos, sendo um catalisador que desencadeia o comportamento automutilador.

 

 

exemplos de automutilação na adolescência

 

Formas de Automutilação na Adolescência

Existem várias formas de um adolescente se automutilar, dependendo da sua criatividade e necessidade de esconder. Uma vez que, normalmente mutilam-se em áreas do corpo que podem esconder com facilidade. Como os braços, as pernas, as coxas, o abdómen, etc…

 

As formas mais comuns de automutilação inclui o cortar-se com giletes, navalhas, facas, vidros, agulhas, pregos, canetas ou outros objectos cortantes. Contudo existem outras formas de automutilação:

  • – Queimar-se (cigarro, produtos químicos);
  • – Morder os lábios até fazer feridas, a língua, os braços ou as mãos;
  • – Esmurrar-se e/ou chicotear-se;
  • – Reabrir feridas;
  • – Beliscar-se e/ou bater em si próprio;
  • – Arrancar os próprios cabelos;
  • – Enforcar-se por alguns instantes;
  • – Esmurrar-se contra paredes ou outras superfícies ásperas;
  • – Medicar-se exageradamente, mas sem intenção de suicídio.

 

 

 

Automutilação na Adolescência Como Ajudar

 

Estes adolescentes, uma vez que demonstram uma extrema dificuldade em falar sobre eles próprios, é mais difícil perceber os comportamentos auto-infligidos, pois têm medo da rejeição, de serem julgados, porque acreditam que ninguém os consegue compreender e ajudar.

 

Para o tratamento da automutilação, tem-se mostrado eficaz o uso de medicação em simultâneo com psicoterapia. Não existe uma medicação específica para o tratamento destes comportamentos. Mas os medicamentos que aliviam a sintomatologia depressiva e ansiogénica, podem colaborar na diminuição da vontade de automutilar-se.

 

A psicoterapia visa ajudar o adolescente a procurar outras formas de lidar com as frustrações. Permite ajudar a identificar os problemas implícitos que provocam os comportamentos auto-mutiladores. A terapia pode, também, ajudar a gerir melhor a angústia/preocupação, ajudar a regular a impulsividade e outras emoções. Aumentar a auto-estima, melhorar os relacionamentos, e desenvolver capacidades/aptidões de resolução de problemas mais assertivas.

 

 O melhor será que o adolescente procure um psicólogo que possa fazer o diagnóstico e apresente um plano terapêutico. Esta iniciativa deve partir do próprio adolescente, não devendo ser forçado.

 

Os pais e amigos devem estar atentos, e quando notarem mudanças no comportamento do adolescente que poderá enquadrar-se num quadro clínico de automutilação, deverão incentivá-lo a procurar voluntariamente ajuda psicológica.

 

Durante o tratamento, há a possibilidade de recaídas, daí a necessidade constante do adolescente evitar ser exposto a pensamentos de dor. Contudo há que estar atento, porque nem sempre uma recaída está relacionada com um problema grave, como a morte de um ente querido, o divórcio dos pais ou um acidente. Uma simples discussão com um amigo, com o progenitor ou com um(a) namorado(a), pode desencadear níveis significativos de dor e sofrimento, que leve o adolescente a automuliar-se desesperadamente.

 

O adolescente, mais do que qualquer outra coisa, precisa ser amparado, apoiado e ter a sua angústia reconhecido. Pois grande parte do que está a sentir acontece, devido a uma desorganização psíquica que está a vivenciar nesta fase desenvolvimental.

 

Se necessitar de ajuda ou mais informação sobre automutilação na adolescência, entre em contacto comigo:

Patrícia Oliveira – Psicóloga WeCareOn