Um dia acordámos, e as coisas nunca mais voltaram a ser iguais. 102,942,987 infetados, 2,232,233 mortes e 422 dias depois…o que sobra do mundo como inicialmente o conhecíamos? A chegada da pandemia veio introduzir alterações profundas na nossa vida, modificando de forma indiscutível a a nossa relação com os outros. Por um lado, forçou uma aproximação quase “perigosa”, de tão intensa e inesperada, com alguns, impondo, por sua vez, o distanciamento doloroso de outros. As consequências têm sido catastróficas a todos os níveis. Um pouco por todo o mundo vão-nos chegando notícias reportando às mais diversas esferas da sociedade.

 

O que está a acontecer?

 

No nosso país, a economia sofreu uma queda de 7,6% (Fonte: INE), a pior queda desde que há registo. Um golpe duro para todo o ramo do comércio, mas particularmente para pequenos comerciantes e, diria mesmo, negócios de dimensão média. Estes negócios, forçados a fechar portas, viram a sua faturação descer a pique, tendo que fazer face a custos fixos. Setores como a hotelaria, restauração, ginásios, cultura, transportes, enfrentam um desafio sem precedentes, levando a um esforço hercúleo de reinvenção.

 

Também o sistema educativo se viu posto à prova, mediante a necessidade de enviar para casa alunos, professores e corpo não docente, numa das mais exigentes reestruturações ao modelo de ensino, até então: plataformas, recursos, metodologias, canais de comunicação, dinâmicas relacionais sofreram ajustes para que o processo de aprendizagem pudesse ser feito “à distância”. Uma mudança certamente mais simples para uns do que outros, sobretudo se tivermos em conta que em crianças com idades mais jovens. Para os mais jovens a capacidade de auto regular o seu comportamento é manifestamente mais reduzida quando comparada com pré-adolescentes e adolescentes.

Isto leva-nos a outro ponto essencial, no que diz respeito à figura indiscutível da Escola enquanto elemento de suporte às famílias. Estando esta de portas fechadas, como se organiza o casal para poder supervisionar e acompanhar o dia dos filhos em casa? Esta é a realidade de muitos portugueses, que, na ausência de retaguarda familiar e impossibilidade de teletrabalho, se vêem muitas vezes na necessidade de ter de deixar os filhos sozinhos ou mesmo faltar ao trabalho. Pensando nas famílias que se encontram em regime de teletrabalho, também nestes casos o desafio é enorme: gerir uma agenda laboral, muitas das vezes com reuniões ininterruptas, procurando garantir que o(s) filho(s) assistem às aulas e obtêm o apoio de que necessitam. É, efetivamente, complicado.

 

Na linha da frente surgem os hospitais, completamente sobrecarregados, sobrelotados, numa luta constante por acolher e cuidar, muito para lá das suas possibilidades.

 

Diariamente são reestruturados serviços, extinguidos outros, e alargados os que já existem, para dar resposta aos doentes infetados com o Novo Coronavírus. Aqueles que lá trabalham, os nossos guerreiros, heróis sem capa, reinventam-se dia-a-dia, cumprindo turnos atrás de turnos. Estas pessoas continuam a trabalhar, mesmo estando exaustos, desgastados, devastados, mas sempre de cabeça erguida, por nós, por todos.

 

Mas se a natureza extremamente contagiosa do Novo Coronavírus, associada à incerteza na forma como se manifesta em cada um de nós, levou a que rigorosas medidas de contenção fossem impostas, importa, também, compreender o impacto individual que estas mesmas medidas têm (e terão) na vida das pessoas.

 

Estamos confinados…e agora?

 

De repente, vimo-nos forçados a ficar restringidos a “quatro paredes” quase 24h/24h e, seja apenas com o companheiro ou com os filhos, esta é uma mudança muito significativa que acarreta múltiplos desafios. Se por um lado a quarentena pode ser encarada como uma oportunidade para estreitar laços, uma convivência familiar intensa pode ser propícia ao surgimento de conflitos, e portanto não podemos dizer de forma taxativa que o confinamento é algo positivo ou, pelo contrário, que é prejudicial à vida do casal.

 

Impacto no casal

 

O impacto que irá ter na dinâmica relacional difere, consoante as características da relação existente. Ou seja, se estamos perante uma relação que tem vindo a ser estável, onde existem padrões de comunicação claros, com respeito pela individualidade e autonomia do outro. Ou se pelo contrário nos deparamos com uma situação de maior fragilidade, ou eventualmente alguma infelicidade, na qual o diálogo é inexistente ou a comunicação pouco clara. Estudos recentes efetuados nos Estados Unidos da América, revelam que o grau de satisfação com a relação aumentou em casais que apresentavam um funcionamento positivo, tendo por sua vez diminuído junto daqueles que evidenciavam dinâmicas menos positivas (Williamson, 2020). Também na Austrália, os resultados de um inquérito realizado em Maio de 2020 revelam que cerca de 42% dos participantes experienciaram mudanças negativas nas suas relações com os companheiros.

 

As realidades são múltiplas e portanto o efeito deste isolamento é também diverso.

 

Numa situação na qual o casal desejava poder usufruir de mais tempo em conjunto, esta pode ser a situação ideal para investir no fortalecimento de laços. Podem, por exemplo, iniciar um novo projeto a dois, retomar aquela rotina tão desejada mas que a correria diária tornava impeditiva, poder cozinhar a dois, passar uma tarde a conversar, ter tempo para ver aquele filme que ambos queriam, ou simplesmente estar, em silêncio (ou a ler um livro!).

 

Contrariamente, se estamos perante uma relação já por si enfraquecida, ou à beira da rotura, o dever de recolher pode ser extremamente complicado. Este dever pode acentuar fragilidades e aumentando o sofrimento. A impossibilidade de poder usufruir dos momentos habitualmente tidos para estar longe do companheiro (seja um hobbie, uma ida ao café ou o trabalho) pode ser, nesta situação, avassalador, precipitando mesmo uma ruptura definitiva. A este propósito, dados recentes do Ministério da Justiça revelam que entre 1 de julho e 30 de setembro de 2020 foram registados 3.862 divórcios, traduzindo-se num aumento de 235 separações face ao mesmo período do ano passado. Também no Brasil, as solicitações de divórcio, cresceram 54% entre maio e julho.

 

Mais uma vez, se, em circunstâncias ditas “normais”, as dinâmicas do relacionamento de um casal se revelam por si só exigentes, perante o isolamento esse desafio aumenta. Sendo que a forma como a intimidade resiste a estes tempos depende bastante do tipo e da qualidade da relação já existente.

Porque é que isto acontece?

 

Conforme já referido, se a relação está frágil e existem “fissuras”, é muito mais provável que, com o acrescentar de um fator stressante, essas fissuras se acentuem.

Não nos podemos esquecer que estarmos, em parte, privados da nossa liberdade é extremamente desafiante e contra natura. A isto acrescenta o facto de estarmos receosos face à incerteza de uma pandemia que não sabemos quando nem como irá terminar. Já para não mencionar a instabilidade económica de uma economia global fragilizada, com consequências diretas na extinção de milhares de postos de trabalho. Por fim, com a imposição do teletrabalho, emerge uma mistura entre os papéis que desempenhamos na sociedade e na família.

O espaço “casa” passa também a ser o local de trabalho, e uma sala de jantar rapidamente se transforma num escritório e num quarto de brincar. Num momento estamos a tomar o pequeno almoço, de seguida estamos numa reunião, subitamente temos de atender um telefonema urgente porque alguém precisa de nós, logo a seguir o nosso filho saiu do campo de visão e ouvimo-lo chorar, paramos o que estamos a fazer, vamos ver o que se passa, regressamos ao trabalho, pouco tempo depois é preciso preparar o almoço, almoçamos, temos uma reunião importante, entretanto o nosso filho vem pedir colo, damos colo, mas ele quer brincar, então paramos o que estamos a fazer, vamos brincar um pouco… poderia continuar a descrever um cenário que, acredito, seja familiar a muitos.

Isto para dizer que somos, hoje, no mesmo espaço, e em espaço de minutos, trabalhadores, pais, amigos, esposas/maridos, cozinheiros, donos de casa. Estamos confinados à força, e, por tudo, frágeis e irritáveis. É, portanto, perfeitamente natural que acabem por surgir conflitos.

 

O que podemos fazer?

 

Perante as adversidades, importa perceber que quando existe mudança (mesmo que forçada), surgem novas possibilidades. Imposto um ritmo de vida mais lento, surge a oportunidade de experimentar a vida de outra forma. Temos tempo para parar, repensar o que queremos para nós próprios, para o nosso futuro, para as nossas relações, redefinir prioridades, reinventar rotinas, refletir sobre o que funciona, modificar o que não está bem. A nossa saúde foi de certo modo ameaçada, e fomos obrigados a preservá-la, mudando o foco para nós mesmos, e isso é bom. Importa, portanto, fazer essa reflexão e identificar que padrões nos fortalecem, e aqueles que devem ser substituídos.

 

Seguem alguns aspetos sobre os quais julgo ser importante refletir:

 

1 – Comunicar. É importante transformar sentimentos e necessidades em palavras, ou seja, cada um dar-se conta do que precisa e transmitir ao outro essa necessidade de forma clara (não espere que o outro adivinhe, é uma premissa errada). Procure colocar a si mesmo estas questões: “O que estou eu a precisar?”, “Quais são as minhas necessidades?”, “Quais podem ser as necessidades do meu companheiro?”. Procure, quando dialoga, encontrar o que existe de melhor na outra pessoa e salientar as coisas boas, não deixando, no entanto, que nada se “acumule”.

2- Para conseguir comunicar as suas necessidades e expressar sentimentos, deve ser capaz de os identificar. É perfeitamente comum que possa sentir medo, raiva, tristeza, ansiedade ou irritação. Quando sabemos como nos sentimos, conseguimos avaliar melhor a experiência que nos rodeia, compreendê-la, e escolher a melhor forma de lidar com a situação.

3 – Valorize o seu espaço e o seu tempo, definindo momentos para estar sozinha(o) e separada(o) do outro. Todos precisamos de ter tempo a sós, para fazermos o que nos apetece, é desejável e saudável. Escolha um dia e hora, e refugie-se num quarto, na varanda, ou no jardim.

4 – Um casal é uma equipa, e, como tal, deve funcionar em harmonia. É importante que a divisão das tarefas domésticas e o apoio aos filhos aconteça de forma equilibrada, por forma a não sobrecarregar nenhum dos dois.

 

As realidades de cada casal são únicas e portanto as estratégias a utilizar podem ser bastante diversas.

 

Não nos podemos, contudo, esquecer que quando uma relação atravessa uma crise e a ultrapassa, geralmente, a relação sai fortalecida. Sobretudo se conseguirmos compreender que, no amor, o outro é parte de nós, da nossa vida, sem ser um apêndice. Como cantou Vinicius de Moraes: “Amo-te, enfim, com grande liberdade, dentro da eternidade e a cada instante…”

 

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E é no respeito pela liberdade, que a relação tem mais probabilidade de sobreviver.

 

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Beatriz Abreu –  Psicóloga Clínica @ WeCareOn