Prevalência

            Os comportamentos autolesivos em adolescentes são uma grande preocupação para a saúde pública. Prevê-se que no mundo a taxa de prevalência dos comportamentos autolesivos varie entre 3% e 27.6%, enquanto em Portugal se estima que esta possa atingir o limite de 30%, conforme é possível corroborar num estudo realizado em 2012 por Gonçalves e colaboradores. Neste estudo participaram 569 adolescentes e 28% desses já tinha praticado comportamentos autolesivos pelo menos uma vez ao longo da vida.

No que diz respeito a idades, a faixa etária mais comum para a prática dos comportamentos situa-se entre os 13 e os 15 anos, e estas percentagens são essencialmente dominadas pelo sexo feminino, o que não implica obrigatoriamente que existam mais raparigas do que rapazes a praticar comportamentos, mas observam-se mais pessoas do sexo feminino a pedir ajuda profissional. No entanto, perturbações como ansiedade e depressões são mais incidentes em pessoas do sexo feminino do que no masculino.

           

Adolescência

A adolescência é uma etapa da vida marcada pelo desenvolvimento físico, mental, sexual, social e emocional, junto de uma tentativa de construção de autonomia no meio da vida dessa fase onde nos deparamos com várias vulnerabilidades e desafios enquanto tentámos descobrir o nosso papel na sociedade.  Sendo a fase da adolescência uma etapa marcada por fragilidades e onde existe uma elevada probabilidade de mudança e de desequilíbrio, é expectável que, no decorrer do desenvolvimento normal do adolescente, este tenha curiosidade em experimentar e praticar comportamentos de risco, principalmente tendo em conta a elevada reatividade emocional que é característica da adolescência. No entanto, é importante que esses comportamentos sejam avaliados no que remete para a sua repetição, continuidade e intensidade, pelo risco de se fixarem a um padrão de consequências negativas que podem pôr em causa o desenvolvimento. Devido à fragilidade inerente a esta fase e à necessidade do adolescente de representar o caos interno que sente, dispersar a mentalização e ter capacidade de simbolizar, dá-se uma tendência de passagem ao ato (acting), de forma a expressar um conflito ou alterar uma situação que este sente como insustentável.

 

Mas o que são comportamentos autolesivos?

A definição de comportamentos autolesivos foi explicada como qualquer comportamento com um resultado não fatal, em que o indivíduo se magoou propositadamente através de métodos comos: ingestão de uma substância em dose exagerada em comparação com a dose terapêutica aconselhada; iniciou um comportamento com o objetivo de originar lesões ao próprio (e.g. saltar de alturas, cortes); ingestão de uma substância ou objeto não ingerível; ingestão de drogas ilícitas ou substância recreativa. Nesta definição não existe qualquer referência à intencionalidade suicida, mencionando apenas a intencionalidade autolesiva, abrangendo assim os comportamentos autolesivos sem intenção suicida e as tentativas de suicídio.

Os comportamentos autolesivos podem também ser classificados de acordo com a sua gravidade. A gravidade costuma ser definida de acordo com o dano que causa no tecido corporal do sujeito. Para Duarte et al. (2019) existem três categorias de gravidade: a severidade leve/moderada, que engloba comportamentos como morder, puxar o cabelo, arranhões, espetar agulhas e bater; abuso de substâncias/ psicoativos, onde se tem em conta o consumo de drogas e álcool com intenção de causar dano; e por fim, a categoria de elevada severidade, onde encontramos comportamentos como cortes, queimaduras, consumo de substâncias e medicação com intenção de causar dano, ingestão de medicação com intenção de morrer e a tentativa de suicídio.

 

Motivações

Os comportamentos autolesivos apresentam diversas motivações que levam os indivíduos a praticar estes comportamentos. Para esquematizar esta variedade de funções, foi criado um modelo onde as motivações estão divididas em dimensões, havendo duas principais: a interpessoal e a intrapessoal. Nas motivações interpessoais encontram-se oito funções cuja finalidade é influenciar os outros e alargar a rede de suporte como:

(1) Autocuidado — o adolescente autolesiona-se para depois se focar no tratamento da lesão, o que se pode revelar satisfatório e até mesmo gratificante;

(2) Autonomia — para se assegurar que não precisa dos outros;

(3) Influência interpessoal — para fazer com que os outros se preocupem, ou como forma de impedir o abandono;

(4) Ligação aos pares — para se incluir ou demonstrar amizade com o grupo de pares;

(5) Limites interpessoais — para gerar um limite entre o sujeito e o outro;

(6) Procura de sensação — para sentir emoção, excitação ou para ultrapassar os próprios limites;

(7) Resistência — para entender se consegue suportar a dor causada pelas lesões ou para demonstrar a sua resistência;

(8) Vingança — para magoar alguém significativo ou para se vingar.

 

No que diz respeito às motivações intrapessoais, o objetivo passa por reduzir os estados afetivos ou aumentar os estados de desejo, por exemplo:

(1) Anti dissociação — uma forma de atenuar a sensação de vazio, permitindo-lhe sentir algo;

(2) Anti suicídio — uma forma de interromper os pensamentos suicidários sem tentar o suicídio;

(3) Autopunição — uma forma de exprimir sentimentos negativos sobre si próprio como a raiva, punindo-se a si mesmo;

(4) Autorregulação do afeto — uma forma de se acalmar, reduzir a ansiedade e outras emoções negativas;

(5) Sinalização de mal-estar — uma forma de o adolescente dar um significado ao sofrimento emocional que sente. 

Grande parte das investigações conduzidas nesta área demonstram que a função mais referida para os comportamentos autolesivos é a autorregulação emocional/ do afeto, nomeadamente para obter um alívio temporário de estados emocionais negativos, focando a atenção na dor física, e os conflitos familiares.

 

Fatores de risco

Os comportamentos pode ser uma consequência de diversos fatores – os chamados fatores de risco. Estes podem ser divididos em três fatores principais:

(1) Fatores individuais— estatuto socioeconómico reduzido, dificuldade na resolução de problemas sociais, baixa autoestima, perfeccionismo, impulsividade, ansiedade, depressão, perturbações alimentares, comportamentos aditivos, agressividade, pouca resistência à frustração;

(2) Fatores familiares— conflitos familiares, divórcios, mortes, experiências adversas na infância, controlo excessivo, fraca comunicação familiar;

(3) Fatores interpessoais— resultados escolares baixos, bullying (Hawton, 2012), violência física ou sexual, integração em grupos de risco, conflitos e pressão social.

Ainda que existam muitos fatores de risco que contribuem para a prática dos comportamentos, as investigações ditam que transtornos alimentares, abusos sexuais, bullying e conflitos familiares/ sentimento de desvalorização por parte dos pais são alguns dos fatores de risco que mais suportam a prática dos comportamentos.

 

Como perceber se o seu filho tem comportamentos autolesivos?

É preciso entender que os comportamentos autolesivos são encarados como um método de escape para aqueles que os praticam e que funcionam como uma forma de aliviar a dor emocional através da procura da sensação de dor física. Nem sempre estes comportamentos são fáceis de identificar porque muitas vezes os adolescentes recorrem a estratégias para esconder as marcas deixadas pelas agressões, o que significa que é necessário estar atento a outros sinais, nomeadamente:

 – uso de calças e de roupa de mangas compridas durante o Verão;

– isolamento social;

– irritabilidade;

– evitamento de desportos ou atividades que impliquem trocar de roupa à frente de outras pessoas;

– um aumento do autocriticismo e da impulsividade.

 

Como ajudar?

  • A ajuda profissional de um psicólogo é um dos pontos mais importantes. É necessário identificar as motivações aliadas aos comportamentos e intervir nesse âmbito. Assim será possível o profissional ajudar o adolescente a estar mais consciente das suas emoções, aceitá-las e desenvolver alternativas mais adequadas para a gestão da dor emocional, alternativas essas que substituam a vontade de se lesionar. Dependendo da gravidade do caso e consoante a existência de outras patologias associadas, pode ser preciso recorrer a um psiquiatra que prescreva o melhor fármaco para ajudar a diminuir a recorrência dos comportamentos. É importante ter em consideração que os fármacos por si só não são uma solução, é aconselhável o acompanhamento psicológico em simultâneo.

 

  • É natural que no momento da descoberta se sinta preocupado, assoberbado ou até mesmo zangado e com medo. No entanto, é importante lembrar-se que grande parte dos adolescentes que se auto lesiona, também tem medo, culpa e vergonha dos comportamentos que pratica. Por isso, não negligenciar a dor emocional que o adolescente sente, para assim ser possível criar uma relação de confiança onde o adolescente saiba que pode conversar consigo sempre que necessário. Os comportamentos autolesivos acarretam um grande sofrimento, pelo que é importante o adolescente se sentir “acolhido”, escutado e seguro, para que comece a externalizar o sofrimento. A família tem um papel fundamental neste processo.

 

  • Tentar mostrar que existem escapes mais saudáveis para a dor emocional e até criarem esse escape em conjunto. Esses escapes vão ser diferentes de pessoa para pessoa, mas podem passar por atividades como caminhadas, meditação, jounaling mindfulness, ou cozinhar, encorajar o seu filho a estar em contacto com amigos que o apoiem, criar juntamente com o seu filho uma lista de pessoas da confiança dele a quem ligar ou enviar uma mensagem quando se sentir assoberbado, podendo até para isso criar um código, como por exemplo: “vermelho” quando sente que está muito perto de se magoar, “amarelo” quando precisa de conversar, “verde” quando se sente bem.

 

Existe também uma forma menos dolorosa de alívio das emoções negativas: peça ao seu filho para agarrar num cubo de gelo e apertá-lo com muita força. Vai causar uma sensação de queimadura, mas não vai magoar e, enquanto o gelo derrete, os pensamentos negativos vão ficando em segundo plano, começando a atenuar a vontade de praticar o comportamento.

 

Se precisas de ajuda, estamos aqui para ti!

 

Estamos aqui para ti

Bárbara Teixeira– Psicóloga na WeCareOn

 

 

Referências:

https://repositorio.ispa.pt/handle/10400.12/8525

https://www.psycom.net/parent-a-teen-that-self-harms/

https://www.priorygroup.com/media-centre/ten-ways-a-parent-can-help-a-child-avoid-self-harming

https://wecareon.com/blog/automutilacao-na-adolescencia/

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1413-389X2019000400006

https://www.lusiadas.pt/blog/criancas/adolescencia/entender-comportamentos-autolesivos

https://www.trofasaude.pt/noticias-e-eventos/noticias/comportamentos-autolesivos-crian%C3%A7as-e-jovens-no-limite/

https://iacrianca.pt/wp-content/uploads/2021/05/livro_coimbra.pdf

https://www.scielo.br/j/tpsy/a/T8zhmGpwbKw5bm4KsPDWtJc/abstract/?lang=en