Todos nós temos uma maneira única de ver o mundo e isso, antes de tudo, começa pela estruturação dos nossos esquemas cognitivos, ou seja, a maneira como os nossos pensamentos se formam e de que forma eles se articulam na nossa mente. Dentro de muitos fenómenos intrapsíquicos, podemos encontrar as crenças centrais que são a base de uma estrutura profunda e inconsciente.

A partir das nossas crenças centrais, são geradas as crenças intermediárias ou os pressupostos que tomamos como verdades inquestionáveis e que por sua vez, dão origem aos pensamentos automáticos.

Para facilitar a compreensão, ilustra-se a abaixo a estrutura destas organizações cognitivas:

 

 

O que são então as crenças centrais?

Crenças são convicções fortes e absolutas sobre nós, sobre o mundo e sobre os outros. Começam a ser formadas na infância e por isso mesmo, são desenvolvidas de forma autocentrada (com centro no EU) e tendem a ser equivocadas e generalistas, facto que potencia a construção de esquemas de interpretação da realidade distorcidos.

Assim, começamos a descobrir e a ver o mundo como se fosse através de umas lentes com a graduação desadequada, o que consequentemente nos faz adoptar posturas erradas.

 

As crenças centrais identificadas pela teoria cognitivo-comportamental, são:

– A crença do Desamparo.

A pessoa vê-se e acredita ser extremamente vulnerável, frágil, carente, desajustada ou mesmo inadequada.

Como exemplo, alguns pensamentos automáticos que derivam desta crença são: “Estou sozinho/a; não consigo fazer isso”; “Não posso ir fazer isto sozinha”; “Não consigo mudar”; “Não me sei/consigo defender”; “Não sei fazer por mim”; “Nunca vou aprender a fazer isso”.

– A crença do Desamor.

A pessoa sente que não é digna de amor, é indesejável, tem defeitos intransponíveis, é imperfeita, impossível de ser aceite, sem atrativos, rejeitada.

Alguns pensamentos recorrentes desta crença são: “Quem é que vai querer amar alguém como eu”; “Ninguém nunca vai gostar de mim”; “Não sou boa o suficiente para ser amada e desejada”; “Serei sempre rejeitada”; “Nunca vou encontrar ninguém”; “Ninguém vai querer ficar comigo”; “Vou ficar sozinha para sempre”; “Ninguém repara em mim.”

 

– A crença do Desvalor.

A pessoa não consegue ver/sentir valor em si ou em nada do que faz.

Pensamentos automáticos: “Não valho nada”; “Sou um falhado”; “Não mereço viver”; “Não tenho nada de bom para oferecer”; “Não tenho valor; “Não presto para nada”; “Nunca faço nada de jeito”; “Não sou muito inteligente”; “Não vou conseguir”; Não mereço ganhar/ ter sucesso /ser feliz.

A ação destas crenças, influenciam constantemente a nossa leitura de nós, dos outros e do mundo que nos rodeia, levando a que tenhamos ideias limitadoras e que nos comportemos de forma menos saudável para nós mesmos.

Ao comportarmo-nos de forma desadaptativa, geramos consequências para nós que por norma, validam as nossas crenças e fazendo com que elas passem a ser verdades absolutas para nós.

Exemplo hipotético:

Uma pessoa que convive com a crença de desvalor, tem tendência a evitar novas oportunidades de carreira.

Entretanto o seu colega do lado recebe uma promoção.

Automaticamente, esta situação é integrada internamente como uma confirmação de que ela não tem tanto valor como o colega, e por isso reforça a crença de desvalor sobre ela própria. Na verdade, a sua crença central a limitou de expressar o seu potencial e por essa razão, ninguém teria como saber que ela teria o perfil adequado e mais do que suficiente para ocupar a nova posição.

Por influenciarem as nossas atitudes, resultando na consequência de padrões situacionais que se repetem continuamente, estas crenças estão na base de várias patologias clínicas ou são causas de grande sofrimento psicológico como: desajuste na autoestima, comprometimento da capacidade em estabelecer limites; problemas de confiança em si e/ou nos outros, dificuldade em estabelecer vínculos relacionais, ideação paranoide, ansiedade, depressão, entre outros.

Quando acreditamos de forma inquestionável nessas ideias, existe uma tendência para o isolamento, o que reforça e dá poder aos pensamentos disfuncionais, sendo cada vez mais difícil aceitar qualquer outra perspectiva de leitura. Assim, a inflexibilidade cognitiva aumenta, dominando a forma de interpretação da realidade.

Contudo, estes esquemas cognitivos, não são inalteráveis e podem ser trabalhados através de um processo terapêutico, onde temos a possibilidade de quebrar o ciclo desadaptativo, identificando as crenças e colocando-as em questão.

Ao conseguirmos ressignificar as crenças, conseguimos alterar a forma como se interpreta e integra a realidade e consequentemente alterar comportamentos que visam a diminuição e/ou prevenção de sofrimento intrapsíquico, dotando a pessoa de novas ferramentas para interagir e descobrir o mundo.

E sabe? Os profissionais de saúde estão aqui para si, para o/a acompanhar e ajudar.

Procure orientação. Pode fazer este caminho acompanhado/a.

 

Se quiseres aprender mais sobre o tema visita:

Beck, J. S. (1997). Terapia cognitiva: teoria e prática (S. Costa, Trad.). Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1995)

Beck, A. T., Freeman, A., & Davis, D. D. (2005). Terapia cognitiva dos transtornos da personalidade (M. A. V. Veronese, Trad.). Porto Alegre: Artmed. (Trabalho original publicado em 2004)

Beck, A. T., Rush, A. J., Shaw, B. F., & Emery, G. (1997). Terapia cognitiva da depressão (S. Costa, Trad.). Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1979)

 

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Cláudia Graça – Psicóloga na WeCareOn