A Perturbação de Hiperatividade / Défice de Atenção (PHDA) é uma doença caracterizada por dificuldades em manter a atenção, hiperatividade, impulsividade e desregulação emocional. No adulto, estas dificuldades podem ter consequências notáveis: dificuldades laborais, várias mudanças de emprego, problemas financeiros, problemas de adição ao jogo, acidentes de viação, problemas conjugais, entre outros.

Algumas pessoas aprendem a lidar com os sintomas por si mesmas, mantendo altos níveis de desempenho em certas áreas das suas vidas. No entanto, podem ter dificuldades noutras áreas, incluindo tarefas mundanas como pagar contas, gerir a sua saúde ou cuidar dos seus relacionamentos.

Neste artigo, o nosso psiquiatra e psicoterapeuta Fábio Monteiro da Silva, ajuda-o a perceber como lidar com a PHDA. Para saber mais sobre esta doença, clique aqui. Para conhecer outras causas de dificuldades de atenção, clique aqui.

 

Que tratamentos existem para a PHDA no adulto?

 

O tratamento da PHDA deve multimodal, incluindo estratégias como psicoeducação, uso de fármacos e de terapia cognitivo-comportamental. Por outro lado, sempre que possível, o tratamento deve envolver os familiares.

Muitas pessoas com PHDA sofrem paralelamente de problemas de ansiedade, depressão e abuso de substâncias. Estes problemas devem também ser cuidadosamente avaliados e tratados.

 

Qual o papel da psicoeducação?

 

O objetivo da psicoeducação é informar o paciente e os seus familiares acerca da doença, das suas causas e dos seus tratamentos. Assim, a psicoeducação deve ser o primeiro passo do plano de tratamento de qualquer doença. No entanto, é particularmente importante na PHDA. Uma vez que os sintomas de PHDA se confundem com a própria personalidade da pessoa, é essencial distinguir o que é seu e o que é da doença.

Atualmente, pode encontrar muita informação em sites e vídeos na internet. No entanto, nem todas as fontes são fidedignas. Isto é, por favor, consulte o seu psiquiatra sobre quais são as melhores fontes de informação.

 

Qual o papel da medicação?

 

A medicação tem um papel central no tratamento da PHDA. Segundo a Associação Europeia de Psiquiatria, os estimulantes devem ser a primeira linha de tratamento. Em Portugal existem dois estimulantes disponíveis – o metilfenidato e a lisdexanfetamina. O metilfenidato existe em várias formulações, com diferenças no tempo de início de ação e no tempo total de ação.

Estes medicamentos demonstraram ser eficazes em vários estudos e são geralmente bem tolerados. Os principais efeitos laterais incluem aumento da tensão arterial e da frequência cardíaca, diminuição do apetite e problemas de sono. Por este motivo, após o início do tratamento, a tensão arterial, a frequência cardíaca e o peso devem ser avaliados pelo menos duas vezes por ano.

Além dos estimulantes, estão disponíveis outros tratamentos de segunda linha, como atomoxetina e bupropiom. O seu psiquiatra pode ajudá-lo a decidir a melhor opção para o seu caso em concreto.

 

Qual o papel da psicoterapia?

 

Apesar da medicação ser muito eficaz, algumas pessoas continuam com sintomas debilitantes mesmo estando medicadas, enquanto outras não podem ou não pretendem tomar medicação. Vários estudos mostram que a terapia cognitivo-comportamental pode diminuir os sintomas da doença e as suas consequências.

Durante o tratamento, o seu psicoterapeuta pode ajudá-lo a desenvolver competências de organização e gestão de tempo, resolução de problemas e regulação emocional. Além disso, pode ajudá-lo a identificar crenças disfuncionais desenvolvidas ao longo do tempo em resposta às dificuldades causadas pela própria PHDA, como “sou um falhado” ou “sou preguiçoso”.

 

Qual o papel de outras estratégias?

 

Além da medicação e da psicoterapia, o exercício físico e a meditação podem ser úteis. No entanto, há menos estudos sobre estas estratégias, pelo que é mais difícil recomendá-las. Seja como for, cada plano de tratamento é único e deve adaptar-se às suas preferências. Se tem interesse em meditação e exercício físico, discuta estas opções com o seu médico.

 

Que dicas posso usar para lidar com a PHDA?

 

Nesta secção, deixámos-lhe algumas dicas para lidar com os sintomas de PHDA. Algumas destas sugestões podem parecer bastante simples. No entanto, se a implementação de cada uma destas dicas fosse fácil, provavelmente não padecia de PHDA. Assim sendo, esforce-se, mas não se force para além dos seus limites!

 

Dicas para lidar com os sintomas de PHDA enquanto adulto:

  1. Tenha relógios de parede visíveis em várias divisões da casa. Relógios de pulso ou o telemóvel não são suficientes, pois provavelmente vai-se esquecer de os consultar!
  2. Treine a sua capacidade de estimar o tempo necessário para cada tarefa. Pessoas com PHDA subestimam o tempo necessário para completar tarefas, acabando por se atrasar. Embora a culpa não seja sua, cabe-lhe treinar esta competência o melhor que puder! Para facilitar este treino, divida cada tarefa em várias partes pequenas.
  3. Faça uma coisa de cada vez e defina tempos para pausas. Se trabalha no computador, mantenha o menor número possível de janelas abertas e desligue todas as notificações de chats e redes sociais.
  4. Defina uma hora do dia para responder a TODOS os seus emails.
  5. Não abra emails ou mensagens se não pode responder no imediato. Assim, mantenha para si mesmo o seguinte paradigma: “Se deixar para responder depois, não vou responder”.
  6. Antes de aceitar novos trabalhos ou desafios, consulte a sua agenda e defina quando pode realizá-los. A PHDA cria dificuldades na perceção do tempo, fazendo, assim, com que a pessoa aceite fazer mais coisas do que as que são realistamente possíveis.
  7. Aponte TODAS as coisas que tem de fazer no exato momento em que elas surgem. Pois, se não apontar um afazer mal ele surja, o mais provável é que se esqueça dele.
  8. Aponte TODOS os seus compromissos numa agenda no exato momento em que disse sim ao compromisso. Deve ter como regra para si mesmo que “Se não ficou apontado, não vai acontecer”, porque o mais realista é esquecer-se.
  9. Mantenha apenas uma agenda ou bloco de apontamentos. Atualmente, várias apps permitem sintonizar o telemóvel com o computador, garantindo que não perde nada. Pessoas com PHDA podem dar por si a ter vários blocos de notas e agendas. Resista a esse impulso!
  10. Guarde os seus objetos pessoais sempre no mesmo local. Lembre-se que, sempre que abrir uma exceção, pode esquecer-se dela!
  11. Guarde os seus objetos mal acabe de os usar. Pense para si mesmo “Se não arrumar agora, não vai acontecer”. Mesmo que esteja convencido que passados 5 minutos vai de facto arrumar, o mais realista é o seu cérebro eliminar essa tarefa pendente ao fim de poucos segundos e esquecer-se.
  12. Durante conversas com pessoas, evite desviar o olhar do interlocutor enquanto ele fala. Isto ajudá-lo-á, assim, a acompanhar a conversa do início ao fim.
  13. Pratique técnicas de atenção plena (também conhecido como mindfulness), ou seja, treine a sua mente para permanecer atenta ao Aqui e Agora.

 

Ao tentar aplicar estas técnicas, faça-o com uma atitude bondosa e compassiva para consigo mesmo. Recorde-se que, se fosse fácil aplicá-las, provavelmente não teria PHDA. Além disso, pode ser difícil aplicá-las sozinho, sem ajuda de medicação e de acompanhamento por um profissional experiente na área.

Sem tem dúvidas sobre a(s) melhore(s) estratégias para si, procure ajuda profissional.

 

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Fábio Monteiro da Silva –  Psiquiatra e Psicoterapeuta @ WeCareOn