À medida que os confinamentos diminuem (será que “desconfinamento” será exactamente o termo?…) em todo o mundo, e uma aparência de normalidade retorna às nossas sociedades, é tentador simplesmente voltar aos modos de comunicação e padrões de interacção mais familiares. À medida que o tempo passa e nos adaptamos a uma nova realidade do que está a ser apelidado em todo o lado como o “novo normal”, podemos descobrir que cada vez mais internalizamos os nossos pensamentos e sentimentos e suprimimos as nossas emoções.

 

O Poder de Partilhar os Sentimentos para um melhor “Desconfinamento” Mental em Tempos de Crise

 

Mais de um ano depois do início da pandemia de Covid-19, estamos fatigados – e não, não se trata apenas da “fadiga do Zoom”. É mesmo a “fadiga da pandemia”, tal como já a reconheceu a OMS – Organização Mundial da Saúde. Na maioria dos dias, podemos achar que, embora ainda desejemos conexão social, à medida que emergimos desse período de isolamento forçado, compartilhar os nossos sentimentos e experiências é mais importante do que nunca.

 

Uma pessoa até pode saber (ou intuir) que “abrir-se” é valioso. Somos ensinados a “não guardar tudo para nós” e até da importância de revelar os nossos sentimentos e emoções aos outros. Da mesma forma, somos ensinados a “aguentar-se à bronca” ou a “engolir o choro, como um homem ” – noutras palavras, não para entrar em pânico, mas para “manter a calma e seguir em frente”. O famoso e britânico por excelência poster de guerra com este slogan (“Keep Calm and Carry On”) tornou-se um grito de guerra por resiliência e estoicismo em todo o mundo.

 

Nas práticas terapêuticas, como em psicoterapia ou acompanhamento psicológico, no entanto, a auto-revelação e a partilha de pensamentos pessoais e conflitos emocionais estão no centro do processo. Na ciência psicológica, um conjunto substancial de evidências demonstra o quão crucial pode ser a expressão de pensamentos e sentimentos pessoais para manter a nossa saúde emocional “em dia”.

A auto-revelação é um processo de comunicação pelo qual uma pessoa partilha informações sobre si mesma a outra. As informações podem ser descritivas ou avaliativas e podem incluir pensamentos, sentimentos, aspirações, objetivos, fracassos, sucessos, medos e sonhos, bem como os seus gostos, aversões, etc..

 

Os neurocientistas descobriram inclusive que mesmo o nomear os nossos sentimentos pode reduzir a ativação da amígdala – a parte responsável pelas reações do cérebro a quaisquer eventos e situações ameaçadores ou tidas como stressantes.

 

De facto, uma das primeiras investigações do psicólogo Dr. James Pennabaker mostrou que a auto-revelação pode diminuir significativamente os problemas de saúde. Neste estudo exploratório, os alunos foram convidados a escrever sobre sentimentos em torno de um trauma pessoal, durante o período de 15 minutos por 4 dias consecutivos. Os seus indicadores de saúde foram então comparados àqueles que relataram apenas factos dos seus traumas ou àqueles no grupo de controlo que escreveram apenas sobre assuntos triviais.

 

Os resultados foram surpreendentes: 4 meses depois, os estudantes em “condição de auto-revelação” tiveram menos visitas ao centro de saúde do campus universitário e relataram menos doenças. Os posteriores estudos de replicação geraram resultados semelhantes, com evidências claras que sugerem que que a auto-revelação – tanto na forma falada quanto na forma escrita/expressiva – pode produzir benefícios no funcionamento do sistema imunitário e é consistente com níveis de saúde mais elevados.

 

E não apenas na saúde física e mental, a auto-revelação traz benefícios adicionais que transbordam ao nível comportamental.

 

Infelizmente, muitos de nós sofrerão a perda de emprego ou, pelo menos, uma redefinição das nossas funções profissionais, práticas e locais de trabalho nos próximos meses.

 

Então, como vamos “equipar-nos” de maneira a minimizar o stress e a maximizar a saúde?

 

Parte do poder da auto-revelação decorre do facto de reconhecer que a “inibição” é stressante. A inibição é o esforço consciente de se impedir de pensar, sentir ou se comportar de uma certa maneira. Com o tempo, ao “guardar as coisas para nós mesmos” uma pessoa corre o risco de se tornar um agente stressor cumulativo para o próprio corpo e que eventualmente influencia o funcionamento imunológico e a sua saúde física. No entanto, e de forma reversa, a abertura sobre sentimentos, seja através de conversas ou escrita, reduz os constituintes fisiológicos do efeito inibitório e do nosso stress em geral.

 

Muitos de nós têm relutância em compartilhar sentimentos e emoções, no entanto, é fundamental comunicarmo-no em tempos de crise. Seja uma conversa com um amigo ou uma conversa em grupo, fale com frequência e franqueza sobre o que você está a sentir e a experimenciar com as pessoas que escolhe para isso, na sua vida.

 

Nalguns dias isso pode parecer mais “custoso” do que noutros. Nestes dias, especialmente se você sofre de burnout tecnológico, tente escrever. Os estudos mostram que a escrita expressiva tem os mesmos benefícios da auto-revelação no contexto de conversar com alguém.

 

-Tente escrever à mão, de preferência sobre como é que você está a sentir-se, em intervalos regulares durante a semana. Durante 3 a 4 dias por semana, regule o seu ‘timer’ para qualquer coisa em torno de 15-20 minutos e escreva de forma livre.

 

-Não se preocupe com a ortografia, a gramática ou a estrutura das frases – a única regra a seguir é que, depois que você começar a escrever, continue até o tempo acabar.

 

Entre em contacto comigo!

 

Sara Ferreira – Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta, Membro Efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses