Um tema antigo mas sempre atual, adições. Sim, vícios todos podemos ter, e talvez tenhamos, um doce por semana, a série que não largamos até terminar, um livro verdadeiramente viciante…mas…o que são de facto comportamentos aditivos?

Sim porque naturalmente todos temos os nossos gostos, desejos, preferências mais ou menos constantes, alguns mais regulares que outros.

Então, o que é uma adição?

Existem muitas formas de definir uma adição mas vamos procurar explicar o que é, o que significa, causas e possíveis tratamentos.

Uma adição é uma perturbação primária, crónica (ou seja que acompanha o indivíduo ao longo da sua vida) em que a pessoa é conduzida a uma repetição compulsiva (ou seja excessiva) para ter determinado comportamento recompensador mesmo que isso seja sinónimo de danos. Esta é uma doença de controle de impulsos em que o ingrediente principal é o sofrimento.

Existe sim tratamento ou tratamentos com a consciência de que se é sempre adito, pode-se ser adito no ativo ou adito em recuperação. É possível viver feliz em recuperação, sabendo que existe uma vulnerabilidade à qual é necessário estar atento/a e encontrar recursos para enfrentá-la. Estes recursos além de motivação e muitas vezes mudanças na forma de estar ou viver a vida são também procurar apoio profissional.

Existem inúmeras adições e elas podem ser divididas em adições a substâncias e adições comportamentais.

Nas adições a substâncias identificamos adições à cannabis, cocaína, crack, heroína, Ecstasy, metanfetaminas, LSD, cogumelos mágicos, tabaco, álcool, medicação.

Nas adições a comportamos identificamos adições a jogo seja a dinheiro ou videojogos, internet, comida, sexo, exercício físico, compras, trabalho, cirurgias estéticas, solário.

É importante referir também que existem adições cruzadas, por exemplo consumir cocaína e sexo, jogar e fumar cannabis, álcool e medicação.

Tendo como ponto de partida a adição a substâncias, o leque de adições tem, sem dúvida, vindo a aumentar.  Numa sociedade que podemos caracterizar como sendo ansiosa, rápida, tudo é para ontem, prazos, pressão, a ambição de ganhar mais e mais contribui e reforça a dificuldade que muitas pessoas têm em enfrentar e saber gerir esta pressão.

No fundo, podemos dizer que a adição é um mecanismo disfuncional para enfrentar uma determinada situação em que o indivíduo vai alterar o seu humor seja pelo consumo seja pelo comportamento para assim conseguir encontrar conforto espiritual na substância e/ou comportamento e assim garantir um alívio temporário. No entanto, isto é uma ilusão, uma ilusão de controle, o adito é seduzido emocionalmente a acreditar que consegue e que aquele mecanismo disfuncional funciona.

Mas, o problema está lá na mesma, a mesma pressão, stress, ansiedade, tristeza, angústia, ele apenas se ilude que algo mudou porque se sentiu melhor (por causa da substância e/ou comportamento).

A adição vai mudando também, os primeiros consumos são diferentes dos que se tem passados meses ou mesmo anos. Podemos caracterizar 3 fases: a mudança interna, a primeira fase em que existe uma alteração da personalidade permanentemente e daí que seja uma perturbação crónica, ou seja pode até deixar de consumir mas o “chip” está lá e basta repetir uma vez o mesmo comportamento ou ingerir a mesma substância ou até outra diferente para, novamente ativar o processo aditivo. Na segunda fase, a adição cresce e numa terceira fase a adição desenvolve-se internamente.

A verdade é que a adição procura sempre uma forma de se reafirmar, é como se já soubesse o caminho, já sabe que aquele ritual (seja um ritual relacionado com consumos seja com comportamentos) lhe vai dar prazer e por isso vai querer repeti-lo e sentir o tal alívio imediato.

Independentemente da substância consumida ou comportamento existe um ou mais denominadores comuns: todos esses consumos ou comportamentos alteram o humor e têm como recompensa a gratificação imediata e são também o resultado da dificuldade em gerir emoções, regular emoções e também pensamentos e formas de estar de uma forma que seja mais positiva e construtiva por parte do indivíduo. Por existir esta dificuldade ele/a encontra uma forma de se iludir que consegue fazer tudo isso, mas tem que consumir/ter determinado comportamento.

Como funciona um cérebro adito?

Como já compreendemos a adição é uma aprendizagem feita que tem inerente uma recompensa e que é patológica, ou seja, em que existem alterações estruturais, bioquímicas e funcionais nos tecidos, células e órgãos. O consumo crónico de substâncias ou os comportamentos aditivos apropriam-se do circuito de recompensa, existe um condicionamento e passam assim a afetar não apenas o funcionamento do cérebro como a própria estrutura cerebral.

Tudo o que sejam situações de risco, aventura, perigo provocam um aumento de dopamina. O cérebro recebe dopamina e avalia a recompensa, o córtex pré-frontal recebe a informação, faz comparações e decide a resposta atuando.

Todas as drogas rompem o equilíbrio da dopamina, por exemplo, no caso da cocaína, esta bloqueia o recetor de dopamina permanecendo mais tempo no organismo prolongando o prazer. As anfetaminas impedem que a dopamina seja recapturada e assim aumenta a quantidade daquela que se liberta para que a concentração aumente rapidamente. A nicotina estimula diretamente os neurónios produtores de dopamina.

Por exemplo, o consumo seja de álcool, cannabis ou opiáceos diminui os receptores de dopamina que permanecem baixos o que faz com que se diminuam os efeitos prazeirosos da droga e se queira consumir mais quantidade para o mesmo efeito.

Depois de um 1º consumo fica-se logo adito? Não, este é um processo que se vai consolidar no indivíduo de várias formas, físicas, mentais, emocionais e até espirituais.

Ou seja qual é o “limite”? São 2 copos de vinho por dia? 1 gr. de cocaína por fim de semana? Como é que eu sei quando estou a perder o controle?

Existem alguns fatores para que o consumo deixe de ser pontual e passe a ser um consumo de dependência, o facto de se transformar esse mesmo consumo numa prioridade no seu dia-a-dia e afetar negativamente para a vida do indivíduo. Esta alteração tem por base o seguinte:

1 – a repetição do comportamento compulsivo numa busca por prazer à medida que as atividades e hobbies perdem todo o interesse

2 – a tolerância ou seja é necessário cada vez mais quantidade para os mesmos efeitos.

3 – as consequências são visíveis para todos exceto para o próprio que não entende a real dimensão do problema.

4 – Persistência em continuar a consumir apesar das consequências nocivas para o próprio.

 

Três sinais neurobiológicos da adição:

1 – Esforços mal sucedidos para diminuir ou parar o contacto com o objeto/comportamento aditivo

2 – Craving, impulsos para consumir com regularidade ou ter comportamento

3 – Mal-estar quando não é possível consumir ou repetir o comportamento

 

Causas

Não existe uma causa específica, existem sim muitos estudos que procuram compreender o que acontece efetivamente. Há sem dúvida três fatores que podem estar na origem da adição:

  • Genética

A nossa hereditariedade está entranhada em nós, pele, ossos, e esta é como sabemos transmitida. Se existe adição na nossa família, estamos mais predispostos ao desenvolvimento da dependência química.

  • Ambiente familiar e social

Isto significa que o mundo que o rodeia o indivíduo contribui como um fator que pode ser de risco ou protetor.

Por exemplo, um ambiente em casa disfuncional, viver num bairro de uso, sofrer de bullying, maus tratos em casa/escola, tudo isto são fatores de risco.

 

  • Personalidade

Na personalidade estão os aspetos psicológicos que envolvem dificuldades de lidar com frustrações, gerir emoções, traumas, quadros de depressão e/ou ansiedade, e mesmo doenças mentais. Há uma propensão maior para a adição nestes casos.

 

Ou resumindo, causas biológicas, psicológicas e sociais ou os chamados fatores biopsicossociais, é a soma destes aspetos ou de alguns deles que podem explicar a dependência.

 

Como é que sei que já estou no caminho da dependência?

 

Sinais de alerta:

  • Mentir acerca do comportamento (quantidade e frequência)
  • Acreditar que para estar bem preciso de consumir ou ter determinado comportamento
  • Estar sobre o efeito de substâncias ou ter determinado comportamento todos, ou quase todos, os dias
  • Isolamento
  • Adiar ou esquecer atividades ou tarefas importantes
  • Sentimentos depressivos e de desesperança e/ou ter pensamentos de terminar com a própria vida.
  • Ressaca como consequência de não consumir
  • Consumir tanto que não é possível um funcionamento normal no dia-a-dia

 

 

Tratamento

 

  • Internamento em comunidade terapêutica com terapia de grupo e individual
  • Socialização e novas rotinas
  • Consultas de psicologia e hipnose: acompanhamento regular focado em adições (nomeadamente controle de impulsos), regulação emocional e ansiedade

 

A hipnose pode de facto ter resultados interessantes no que respeita a adições, na promoção de novas rotinas e na manutenção da recuperação a par com consultas de psicologia para irmos trabalhando todos os temas que surgem.

Porque, por vezes, a par com a adição podem existir comorbilidades psiquiátricas como perturbações de humor, perturbações de personalidade entre outras.

 

Um adito é muitas vezes alguém que precisa em primeiro de identificar as emoções de base com relação ao seu problema, em segundo modificar o seu estado de isolamento que rapidamente se transforma na sua forma de estar, em terceiro reaprender o significado da Vida e da Gratidão.

O modelo Minesota é um modelo utilizado amplamente pelo mundo, quer sejam adições de substância quer de comportamentos.

Sabe mais sobre isso aqui:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Programa_de_12_passos

 

Estou aqui para ti

Cátia Raposo– Psicóloga na WeCareOn

 

Vê ainda os nossos artigos WeCareOn sobre hipnose:

 

Outros Sites:

https://hospitalsantamonica.com.br/dependencia-quimica-entenda-as-causas-consequencias-e-sintomas-deste-transtorno/

 

https://www.sicad.pt/pt/Paginas/default.aspx

https://www.sicad.pt/BK/Intervencao/TratamentoMais/Documentos%20Partilhados/LinhasOrientadorasTratamentoReabilitacaoComunidadesTerapeuticas.pdf

 

 

Leituras e grupos específicos:

https://na-pt.org/ (narcóticos anónimos)

https://www.ca-portugal.com/ (cocaína anónimos)

https://www.aaportugal.org/reunions/144 (alcoólicos anónimos)

https://jogadoresanonimos-com-pt.webnode.pt/ (jogadores anónimos)

http://aasalisboa.blogspot.com/ (aditos ao amor e sexo anónimos)

https://www.comedorescompulsivosanonimos.pt/ (comedores compulsivos anónimos)