Como funciona o tratamento da Perturbação Obsessivo-Compulsiva?

Desconfia que possa ter Perturbação Obsessivo-Compulsiva, mas não sabe como pedir ajuda ou o que esperar das consultas num processo terapêutico? Então este artigo é para si.

De forma muito resumida, simples e com uma linguagem acessível, vou descrever-lhe em que consiste o tratamento da Perturbação Obsessivo-Compulsiva.

 

 

Recordando: o que é a Perturbação Obsessivo-Compulsiva?

 

A Perturbação Obsessivo-Compulsiva é uma Perturbação de Ansiedade, cuja principal característica é a presença de obsessões e/ou compulsões ou rituais. As obsessões são os pensamentos, imagens ou impulsos que causam elevados níveis de stress e de ansiedade, repetidamente, e as compulsões são qualquer ação ou pensamento que procura reduzir esse stress, temporariamente. Muitas pessoas também identificam as compulsões ou os rituais como sendo “tiques”, em linguagem corrente.

Esta Perturbação apresenta uma grande variedade de sintomas e afeta não só a pessoa que sofre com a Perturbação, mas interfere, também, com a dinâmica familiar, relacional e profissional da pessoa.

 

Quais os tratamentos atuais para a Perturbação Obsessivo-Compulsiva?

 

Os tratamentos mais eficazes são a Terapia Cognitivo-Comportamental e a Terapia Medicamentosa.

Como são os tratamentos mais eficazes, geralmente são inclusive recomendados em simultâneo para que os resultados sejam ainda mais eficazes e duradouros.

A Terapia Cognitivo-Comportamental é fundamental para a redução da sintomatologia obsessivo-compulsiva. É particularmente eficaz perante rituais de limpeza, de verificação, repetições ou comportamentos de evitamento (por ex.: evitar estar ao pé de crianças).

Em consulta, o objetivo é o de utilizar exercícios de Exposição e Prevenção de Resposta (i.e., a prevenção e a abstenção da compulsão), que são passados também como trabalho de casa de aplicação diária. A adesão aos exercícios de Exposição e Prevenção de Resposta é fundamental. Desta forma, estamos a reprogramar o cérebro através de novas aprendizagens e formas de ver o mundo: são trabalhados os medos, os pensamentos “maus” automáticos e os pensamentos catastróficos, a avaliação das várias situações que provocam ansiedade e aquilo em que se acredita erradamente (por ex.: “se não verificar o fogão 16 vezes, a minha casa pode ou vai explodir”).

Como parte do processo de tratamento da Perturbação Obsessivo-Compulsiva trabalhamos não só o medo, mas a dúvida e a necessidade de respostas absolutas e construímos passo a passo uma base sólida para a autoconfiança. Portanto, irá aprender, com o tempo, a confiar em si e a olhar para dentro com carinho, substituindo o pânico, a raiva, a vergonha e a culpa.

 

 

Como funciona a Terapia de Exposição e Prevenção de Resposta, na prática?

 

Na prática, a terapia procura ajudar a pessoa a quebrar o ciclo que mantém a Perturbação Obsessivo-Compulsiva. Com os exercícios de Exposição e Prevenção de Resposta, vão ser eliminados os sintomas que estão a manter a Perturbação e promovida a Habituação às situações mais desconfortáveis.

 

Por exemplo: para rituais de limpeza é pedido à pessoa que toque em maçanetas e que a seguir não vá lavar as mãos. A pessoa “senta-se” com o desconforto, para aprender a lidar com a ansiedade e o pânico de forma mais saudável, como com a utilização de técnicas de respiração mindful.

Existem milhentos exercícios de Exposição, que podem ser discutidos em terapia: a colocação de post-its com determinados dizeres, a leitura de artigos, a visualização de determinadas séries ou filmes, entre outros.

Portanto, é pedido ao cliente que, de forma gradual, entre em contacto e se exponha a determinados objetos, locais ou situações geradoras desconforto e de ansiedade (a exposição) e depois é pedido que se abstenha de executar os rituais (a prevenção de resposta).

Por outro lado, antes de começarmos a por estes exercícios em andamento, fazemos um mapeamento da sintomatologia da Perturbação. Desta forma, conseguimos perceber os sintomas mais frequentes (obsessões, compulsões e evitamentos), as situações que funcionam como gatilho (ou “trigger”) e o nível de desconforto sentido. Porquê? Para não começarmos com as situações mais difíceis e mais geradoras de desconforto.  Essa seria a receita perfeita para a desgraça. Começamos pelo mais fácil, pelo mais “simpático”, construindo a tal base sólida de autoconfiança.

 

 

O que é fundamental reter?

No geral, somos expostos diariamente a estímulos que são incomodativos: o frio, o calor, o barulho de uma ventoinha ou de um relógio de corda, o barulho dos aviões numa cidade com aeroporto, etc. Ainda assim, com o tempo, estes estímulos deixam de nos incomodar e, na grande maioria das vezes, até começam a passar despercebidos. Nos primeiros tempos, o barulho dos aviões a passar pode ser incomodativo, mas depois uma pessoa habitua-se e deixa de lhes prestar atenção.

Com a Terapia de Exposição e Prevenção de Resposta procuramos por em prática o fenómeno da habituação, para uma redução significativa do desconforto e da ansiedade e para uma vida mais plena, mais leve e com mais sorrisos diários.

Uma nota muitíssimo importante: o inicio da terapia é exaustivo e provoca um aumento considerável dos níveis de ansiedade, mas será suportável. É um facto. No entanto, será capaz de superar isto, porque está acompanhado, vai ser guiado passo a passo e sentir-se empoderado.

Qual é o lema do processo terapêutico?

 

“O crescimento não acontece na nossa zona de conforto, mas sim na nossa zona de desconforto.” (JP Sears)

 

 

Bibliografia:

Cordioli, A. V., de Souza Vivan, A., & Braga, D. T. (2016). Vencendo o Transtorno Obsessivo-Compulsivo-: Manual de Terapia Cognitivo-Comportamental para Pacientes e Terapeutas. Artmed Editora.

Foa, E. B., & Wilson, R. (2009). Stop obsessing!: How to overcome your obsessions and compulsions. Bantam.

 

Estamos aqui para si.

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Filipa Cruz – Psicóloga Clínica, Membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses