Chegamos quase ao Natal.

E o Natal vem acompanhado. Acompanhado por cheiros, cores, sabores. Pessoas que não vemos há muito tempo, familiares esquecidos, encontros, tristezas e alegrias passadas. Nostalgias do que passou e do que virá…

 

Mas com o Natal também vêm as listas intermináveis, a sensação que o tempo não chega. As filas em lojas durante a hora de almoço. E para quem tem crianças por perto, os atropelamentos de pedidos, as cruzinhas nas imagens dos folhetos das grandes superfícies. E as confusões o que quero hoje afinal não é o que quero amanhã. Vêm os olhares adultos atentos às promoções lançadas por algumas superfícies. Vêm as horas de espera para conseguir aquele brinquedo. Vem o receio que o dinheiro não seja suficiente e uma noção quase “Ikeaniana” de encaixar tantos novos brinquedos em dois metros quadrados…

E afinal, isto tudo para quê?

 

O que é Brincar?

Ao reler alguns autores ligados à Psicologia e Educação não fica difícil encontrar definições clínicas, sociais e cognitivas do brincar e do quão importante é o brincar. Mas, por agora não nos vamos focar nestes conceitos, ainda que tenhamos por lá passar. Mas sim refletirmos um pouco como adultos, como educadores e como pessoas o que é isto do brincar.
Ao olharmos para crianças é fácil perceber que o brincar é algo que surge espontaneamente, sem hora nem lugar marcado. É algo que claramente dá prazer e que não tem exigência de conclusão (rapidamente uma brincadeira fica em suspenso ou simplesmente não é terminada). E é nesta espontaneidade que a criança começa a dar sentido às coisas. Que pode ser criativa e utilizar a sua personalidade integral. Que estabelece contactos sociais, que compreende o meio e desenvolve habilidades e conhecimentos e que pode experienciar ser o outro, ser o adulto, ser o que desejar.

 

Qual a importância de brincar no desenvolvimento infantil?

Esta linguagem inicia-se precocemente através de jogos repetitivos muito ligados ao sensorial no bébé, evoluindo num atribuir ao outro, aos objetos e a si mesmo, diferentes papéis usando a fantasia e comportamentos fingidos. Mais tarde, torna-se capaz de ouvir uma história ou olhar para imagens e compreender o significado. Manipular um objeto com o objetivo de criar ou construir algo. Até que o brincar passa por um jogo estruturado e com regras, habitualmente em contexto de grupo por volta da idade escolar.
Enquanto se brinca desenvolvem-se estruturas e capacidades. Há um desenvolvimento:

  • Físico (ao puxar, atirar, correr, subir, segurar);
  • Intelectual (resolver problemas, consolidar conhecimentos);
  • Linguístico (a origem e desenvolvimento da linguagem está relacionada com a estimulação e treino);
  • Social (relacionar, negociar, partilhar, papéis sociais, regras sociais) e;
  • Emocional (equilíbrio entre o eu e o mundo; o perder e ganhar).

 

O que não nos torna muito distantes de outros mamíferos, em que ao brincar, aprendem a esquiva, a predação e o ataque. Se não o aprenderem, não sobrevivem. Não aprendem primeiro, para se protegerem depois.

E a criança?

O que acontece à criança que perdeu ou não conquistou a capacidade de brincar?

 

 

Brincar é coisa de gente séria!

Ao longo do nosso crescimento há um brincar que vai ficando perdido. Como se o brincar fosse uma fase da vida, passageira e transitória. E mesmo encarando como sendo uma fase de vida, muitas vezes, nós como adultos não permitimos que aconteça. Repetimos constantemente que não é hora para brincar. Que a escola não é sítio para brincadeiras e que há horas especificas para brincar. E, muitas vezes, as horas passam e a hora nunca vem.

 

São as demandas da escola, são as atividades extracurriculares, as obrigações e tarefas, as rotinas a cumprir. A azáfama de um dia a dia com pouco tempo para parar.

 

E o brincar…?

 

Que angústia esta… A angústia de esperar a hora em que se pode ser livre, experimentar, criar e recriar sem medo de errar e ela nunca chegar…
Hoje em dia, os minutos parecem segundos e há quem deseje que um dia passe a ser definido em 48 horas. As rotinas, exigências, racionalizações, problematizações e automatizações de tudo que nos rodeia, traduzem-nos em adultos que nunca têm tempo para brincadeiras. Em que os horários de trabalho extensos nos obrigam a “entupir” as crianças de atividades. Em avós trabalhadores que já não têm tempo nem disponibilidade para brincar, em adultos robotizados e esquecidos.

 

Traduzem-se em cidades em que as ruas se tornaram perigosas, com espaços verdes que escasseiam, com sítios adequados e “kidzanizados” para brincar. Com demasiados riscos e contraindicações para determinadas brincadeiras…

 

Um mundo em que nós, adultos e crescidos, nos esquecemos do que é o brincar. E o quão importante foi para cada um de nós.
Rapidamente podemos fazer um exercício de recuar à nossa infância e trazer à lembrança uma brincadeira, um jogo, uma pessoa que fazia parte desse momento, uma aprendizagem, um sorriso. Então, o que nos aconteceu ao entrarmos neste Mundo Adulto e sério. Em que damos por nós a reforçar constantemente a perda de tempo que é o brincar e o jogar só vale a pena se tiver um ganho… O que nos aconteceu para tentarmos constantemente colmatar a nossa indisponibilidade e esquecimento com brinquedos topo de gama, topo de complexidade e topo de novidade em que não é preciso companhia para os brincar. E que podem ser usados em qualquer altura e prometem entretenimento por horas!

Que adultos, que pais, que educadores nos tornamos quando colocamos as nossas prioridades, inseguranças e culpabilidades à frente dos desejos das nossas crianças?

 

A importância do Brinquedo e do Brincar

 

Trocam-se brinquedos por tupperwares

 

E o brincar será algo assim tão complexo?

Serão necessários quartos amontoados de brinquedos?

 

Será que as crianças brincam mais por ter determinados brinquedos… A verdade é que os estudos nos têm mostrado que quanto mais elaborados são os brinquedos, menos estimulantes o são. Quanto mais simples, mais cumprem a sua função. E como sabem, as crianças podem brincar com tudo! Até com a própria imaginação. A brincadeira livre, espontânea, surge em qualquer lado com qualquer coisa e muitas vezes surge do não ter nada para fazer.
Um pauzinho transforma-se num avião, um monte de almofadas em castelos e montanhas e umas cuecas na cabeça fazem de nós super heróis.

 

Então para quê tantos brinquedos?

 

A senhora brinca?

Todos nós desejamos que as crianças cresçam como adultos capazes de encarar desafios e resolver problemas. Adultos curiosos e capazes de lidar com o mundo. Adultos alegres e com sentido de humor.
Então, porque não deixamos as crianças simplesmente brincar?

 

Porque não os permitimos a desenvolver a atividade em que podem ser alegres, podem experimentar ser e aprender a crescer sem medo de errar?
A nós, adultos, apenas nos cabe o papel de dar espaço e respeitar esta exploração tão séria que é o brincar. Cabe-nos o papel de deixar a criança encontrar o que gosta de fazer e brincar. Encorajando-a a mostrar todas as suas potencialidades, permitindo descobrir e se conhecer. Parece fácil, não é? Mas quantas vezes nos mantemos à parte das brincadeiras. Bloqueamos ou dirigimos a brincadeiras com indicações do como se faz (“brinca assim” ou “não é assim que se brinca”).

Porque não preocuparmos-nos menos no como se brinca e simplesmente permitirmos-nos ser espontâneos, permitirmos-nos recuperar esse brincar que ficou lá no tempo em que fomos crianças. Permitirmos-nos simplesmente estar com vontade para dar e receber, que do resto as crianças encarregam-se!
Assim, em tom de desejo de Natal…Que neste Natal, nós adultos sejamos capazes de estar e redescobrirmos com as nossas crianças o prazer e a alegria do brincar!

 

A todos, um Bom Natal e boas brincadeiras.

 

Por Susana Pereira, psicóloga WeCareOn