Todos nós, a partir dos dois anos de idade, começamos a sentir e a lidar com a vergonha. Esta é uma emoção básica transversal a todos os seres humanos e, apesar de poder ser desconfortável, também ela tem a sua utilidade.

 

Como se manifesta a vergonha?

 

Fisicamente os sinais mais comuns são o rubor facial (quem já não se sentiu atrapalhado por estar a corar?), o coração acelerado, tensão muscular ou tremores. Por outro lado, a vergonha manifesta-se através de pensamentos negativos sobre nós mesmos como por exemplo “Vão pensar mal de mim!” ou “Não tenho jeito nenhum para isto e vão julgar-me!”.

 

E, por último, a vergonha manifesta-se através de comportamentos como pedir desculpa, tentar resolver uma situação, fugir de alguém e todo o tipo de comportamentos que nos ajudem a sentirmo-nos aceites e a ficar bem com os outros.

 

E para que serve a vergonha?

 

Olhemos para a vergonha como o nosso “filtro” social ou moral, pois é esta emoção que nos sinaliza sobre os comportamentos que deveremos ou não ter nas relações com os outros. Por exemplo, quando nos dirigem uma crítica, a presença da vergonha pode ajudar-nos a refletir sobre isso e, por vezes, a corrigir certos pensamentos ou comportamentos. Assim sendo, podemos dizer que a vergonha, como emoção básica, nos pode ajudar (e muito!) a relacionarmo-nos com os outros de uma forma mais saudável.

 

Quando sabemos que a vergonha está a limitar a nossa vida de uma forma significativa?

 

Sendo a vergonha uma emoção que nos ajuda a regular os nossos comportamentos interrelacionais, a partir do momento que sentimos que a vergonha mais do que nos regular, nos desregula, então pode ser sinal que está a passar dos limites.

 

Essa desregulação pode passar, sobretudo, pela desproporcionalidade da vergonha sentida (quando sentimos, por exemplo, que não há propriamente uma razão para sentir vergonha); pelo desconforto intenso associado à vergonha (quando os sintomas físicos atingem proporções que nos fazem querer fugir) e pelo evitamento de certas situações sociais para evitar a própria vergonha.

 

E porque é que a vergonha pode limitar tanto a nossa vida?

Nesses casos poderemos estar a falar de uma vergonha associada a ideias negativas que temos sobre nós mesmos (crenças negativas) e sobre os outros. Quando acreditamos que somos fracos, inferiores, não merecemos o amor dos outros ou somos até desadequados, a vergonha pode surgir de uma forma tão intensa que nos causa mal-estar, uma enorme ansiedade e vários comportamentos de evitamento (não ir a certos sítios ou a certas situação, distanciarmo-nos fisicamente dos outros para não correr o “risco” de um abraço, por exemplo).

 

E quando isso acontece, a crítica sobre nós mesmos cresce ainda mais, como se fôssemos ridículos por sentir vergonha, para além de o medo e a tristeza aumentarem por sentirmos que a vergonha não nos deixa enfrentar e alcançar aquilo que até gostaríamos de ter.

 

Como lidar com a vergonha de uma forma saudável?

 

1 – Como qualquer emoção, precisamos, primeiro, de acalmá-la para conseguir olhar com mais clareza para o que quer que seja. Então, um exercício de respiração em que inspiramos pelo nariz e expiramos pela boca (o dobro do tempo) pode ajudar a acalmar. Também ajuda tirar um pouco o foco da nossa vergonha (porque quanto mais olhamos os sinais físicos, mais vergonha sentimos) e focarmo-nos no que está à nossa volta.

 

2 – Agora mais calmos, tentamos aceitar o que estamos a sentir como um sinal de que estamos a precisar de algo. Assim, mais do que nos criticarmos porque estamos a sentir vergonha, podemos simplesmente perguntar-nos “Porque estarei eu a sentir isto?”.

 

3 – Quando percebemos porque estamos a sentir vergonha, por mais “ridículo” que possa parecer, é sempre válido. Como tal, podemos perguntar-nos “O que é que eu preciso agora?”

 

4 – Entendendo o que precisamos, quer seja pedir desculpa, impor um limite ou procurar validação ou conforto, tentemos orientar o nosso comportamento em função dessas necessidades.

 

Se mesmo assim é muito difícil para si lidar com a vergonha e sente que ela pesa na forma como vive o seu dia-a-dia, vai sempre a tempo de pedir ajuda… sem vergonha!

 

 

Inês Chiote Rodrigues – Psicóloga WeCareOn