O culto da escassez é universal, automático, gratuito, intrusivo. Somos bombardeados desde sempre com a ideia de que é sempre possível fazer e/ou ter mais e melhor. Vivemos mais tempo, mas não necessariamente melhor. E o cansaço do esforço dos dias pode tornar-se mais e mais presente. Como se nada do que fizéssemos fosse suficiente. Neste artigo procuramos explicar o que é o culto da escassez, quais as suas raízes, como se manifesta, para que serve e compreender que podemos viver sem ele. Viver, mais do que sobreviver.

 

As raízes do culto da escassez

O som das notícias da rádio inunda o quarto na penumbra das sete da manhã. Há um braço que emerge do mar de lençóis e edredom e tateia o despertador para o desligar temporariamente. Suspira profundamente. Enquanto pisca os olhos perante as frinchas de luz que surgem na janela, surge o primeiro pensamento: «não dormi muito bem; mais um dia sem energia.». Os músculos começam a acordar aos poucos e o calor confortável da cama não a convida a sair para o frio da casa. «Esta casa não é nada quente».

 

O despertado toca de novo, irritante. Procura convencer-se que se levanta assim que quiser, mas que as dificuldades que sente são naturais dada a noite mal dormida. Vira a cabeça na almofada e sente os músculos do pescoço e das costas a queixarem-se novamente da falta de exercício, aquele que sabe que precisa e que é saudável mas para o qual não tem tempo. Divaga entre tudo o que tem para fazer neste dia e conclui «não vou ter tempo para tudo». Senta-se na cama, pousa os pés no chão, boceja.

 

Até agora já reforçou pelo menos três vezes o sentimento de insuficiência na sua vida. Assim, sem sequer sair da cama, sem sequer abrir bem os olhos. Fez tudo isto sozinha, sem precisar de ajuda. Tem em si este mecanismo bem trabalhado, esta máquina de pensar no que não tem, no que lhe falta, no que tem em quantidade insuficiente, no que deveria ter, no que deveriam fazer por si e não fazem.

 

É possível encontrarmos três das raízes mais profundas do culto da escassez na forma como somos levados/as a pensar que:
  1. Não somos suficientes/ Não temos suficiente.
  2. É inevitável (e útil!) fazermos comparações, seja entre eu e os outros, seja entre o eu de há uns anos e o eu de agora («nesse tempo é que eu era feliz…»).
  3. Temos que nos proteger do erro e da imperfeição; ninguém quer um/a fraco/a.

Vamos explorar cada uma delas a seguir.

 

A insustentável leveza da insuficiência

Não sou suficientemente bonito/a, não sou suficientemente feminina/masculino, não tenho sucesso suficiente na minha profissão, não tenho dinheiro suficiente, não tenho sorte suficiente. A lista pode ser longa. Experimenta completar a frase seguinte:

Não sou suficientemente ___________________.

 

Pega agora na palavra que escolheste para completar a frase acima. Reflete nas seguintes perguntas, relativamente a essa mesma frase que completaste:

  • A palavra que escolheste corresponde a algo que podes alterar na tua vida, de forma intencional, responsável, sem te prejudicar ou prejudicar outras pessoas no processo?
  • Se sim, então pergunta-te se queres mudar realmente em relação a esse algo. Porque afinal, se ainda não mudaste, do que estás à espera?
  • É difícil fazer essa mudança? Do que precisas para mudar isso? Tens o que precisas (recursos)?
  • Ponderas pedir ajuda para essa mudança?
  • Que ganhos secundários tens com esse algo que ainda não mudaste, embora “o queiras fazer”?
  • Se concluis que não podes alterar esse algo, procura perceber porque persiste o teu olhar nessa parte da tua vida, esse algo que te limita, que não te deixa olhar para o que podes alterar, para aquilo em que és suficiente. O que ganhas em permanecer virado/a para essa parte da vida na qual, aparentemente, não podes crescer e ser melhor a cada dia?

 

Comparação e Competição

Aproveito o excerto de um livro infantil muito bonito, o Velveteen Rabbit escrito por Margery Williams, em 1922 (não encontro edição portuguesa, por isso se conheceres peço que me informes). É o diálogo entre dois brinquedos de um menino, sendo que um deles, o coelho, gostaria de se tornar real e, assim, ser mais verdadeiro.

 

– Verdadeiro não é como foste feito – disse o Cavalo Skin. – É uma coisa que te acontece. Quando uma criança te ama por muito muito tempo, não apenas para brincar contigo, mas te ama a sério, então tornas-te Verdadeiro.

– Dói? – perguntou o Coelho.

– Às vezes – disse o Cavalo Skin, pois dizia sempre a verdade. – Quando és Verdadeiro não te importas que te magoem.

– Acontece de repente, como ficar tenso – perguntou ele – ou a pouco e pouco?

– Não acontece de repente – disse o Cavalo Skin. – Vais-te tornando. Demora muito tempo. É por isso que não acontece muitas vezes a pessoas que se partem facilmente ou têm arestas afiadas ou que têm que ser guardadas com cuidado. Normalmente, quando te tornas Verdadeiro, a maioria dos teus pelos foram amados até desaparecerem e os teus olhos caíram e ficas com as articulações soltas e muito coçado. Mas estas coisas não têm importância nenhuma porque quando és Verdadeiro não podes ser feio, exceto para pessoas que não entendem.

 

Pergunto-te:

  • Como medes o teu valor?
  • Quando te sentes mais verdadeiro/a?
  • Tens estado com as pessoas que entendem a tua beleza?

 

Erro, Imperfeição e Vulnerabilidade

 

Errar é demonstrar a imperfeição, a fraqueza. A vulnerabilidade é uma arena ótima para se errar e, por consequência, se fazer figuras tristes, ficar mal visto, ser-se ridículo. Assim sendo, há que se evitar a vulnerabilidade a todo o custo. Será assim?

 

O que é a vulnerabilidade?

Brené Brown define vulnerabilidade como incerteza, risco e exposição emocional. Quando foi a última vez que te viste numa situação em que te expuseste ao julgamento dos outros, sem ter a certeza do que daí ia resultar, embora sentisses que esse era o caminho a seguir? Pensa nesse momento em que te tenhas sentido vulnerável. Vá lá…

 

Pode ter sido quando deste por ti a dançar sozinho/a no meio da festa de casamento dos teus primos afastados. Ou quando te começaste a inclinar para ele numa promessa de um beijo a fechar o primeiro encontro que queres repetir. Ou quando, numa conferência cuja sala está a rebentar com tantas pessoas, pediste o microfone para fazer uma pergunta aos oradores e percebes que vais ter que dizer alguma coisa interessante no momento em que to passam para a mão.

 

Ou quando na fila do supermercado decides que não vais continuar a permitir que aquele senhor passe à frente de todos. Ou quando a tua namorada confirma o diagnóstico de leucemia que lhe foi dado pelos médicos e te olha à espera que digas algo. Ou quando entras na sala onde está o médico que aguarda a tua resposta acerca de manter ou não a máquina que ainda permite que o teu pai respire na cama do hospital.

 

Do que te lembras desse momento, tenta responder às perguntas seguintes.

 

Sentiste vergonha?

Vergonha é experienciada perante uma situação que ativa uma crença de que somos defeituosos/as, ridículos/as e, portanto, não merecedores/as de amor e pertença. Todos temos medo de falar na vergonha, é muito desconfortável. Mas, quanto menos falarmos dela, maior é o poder que terá na nossa vida. É matemático. Volta a ler a parte deste artigo sobre a insustentável leveza da insuficiência. O caminho para sair da vergonha é acreditares que és suficiente, capaz, perfeito/a. As pessoas que te amam, a tua “aldeia”, as pessoas que estão contigo independentemente do resultado, essas estão sempre ao teu alcance. Sempre. Por isso talvez seja a hora de parares de avaliar o teu valor e merecimento com base na reação das outras pessoas que ficam na bancada a observar (com inveja) a tua coragem de entrar em campo e dar o melhor de ti. Estamos por aqui se precisares de ajuda.

 

Sentiste culpa?

Provavelmente consideraste que fizeste algo errado, face aos teus valores e princípios de vida. O que fizeste não esteve de acordo com aquilo em que tu acreditas. O caminho para te sentires melhor com isso é a coerência entre as tuas ações e os valores que defendes. Talvez tenhas que te armar de coragem pois pode ser que tenhas agido dessa forma “estranha” para evitar ficar mal visto junto de alguém. Volta a ler a parte deste artigo sobre a insustentável leveza da insuficiência.

 

Sentiste humilhação?

Talvez tenha começado por ser uma ligeira vergonha mas depressa percebeste que era uma sensação desconfortável de indignação a crescer, já que sabias que não merecias o que aconteceu pois deste o melhor de ti. Nesse caso o caminho pode ser a assertividade e, novamente a coerência. Quem age de acordo com os próprios princípios está mais seguro do que diz e do que sente.

 

Sentiste medo?

Se a tua segurança esteve em causa então não falamos de vulnerabilidade, falamos de uma situação em que foste abusado/a ou negligenciado/a e isso pode implicar pedires ajuda para recuperar e encontrar uma solução mais saudável para ti. Mereces sempre o melhor para ti, e isso é sempre avaliado pelo que te faz mais sentido. Não estás sozinho/a. Estamos aqui.

 

Sentiste-te fraco/a?

Mas fraco/a em relação a quê, ou a quem? Não estarás a comparar-te com os outros ou contigo noutra altura ou situação? Volta a ler a parte deste artigo sobre a comparação e a competitividade.

 

Sentiste embaraço?

Se calhar até foi divertido, percebeste que outras pessoas passaram pelo mesmo, ficas com uma história divertida para contar. O embaraço é algo que todos sentimos às vezes e acaba por passar, não nos define.

 

Então… O que sentiste, se não foi uma das opções acima? Se experienciaste uma sensação de missão cumprida, um reforço da tua auto-estima, aquela sensação boa de quem arriscou e conseguiu algo fantástico, então és alguém que, como eu, acredita que a vulnerabilidade pode ser uma das maiores fontes de aprendizagem que podemos ter na vida. Sair da nossa zona de conforto, dizem alguns. Chama-lhe como quiseres, mas sente, vive, experiencia.

 

Plenitude

Notícia de última hora: nem sempre se pode evitar a vulnerabilidade; ela é uma característica que tem a vida de todos nós, faz parte de inúmeras situações, surge às vezes de onde menos se espera. Quando vives uma emoção, estás por natureza vulnerável. Isso não é uma fraqueza! Isso não é mau nem bom, não há emoções boas ou más. O que há é emoções que resultam da forma como vês cada situação e elas têm o poder de te dar informação para decidir como agir em seguida. Se a forma como experiencias uma dada emoção te deixa mais vulnerável é porque precisas de experienciar essa situação assim, com coragem, de forma plena.

Vais sempre, sempre, aprender algo útil. E poderás viver uma vida plena.

 

Sugestões para seres uma Pessoa Plena, segundo Brené Brown:

Cultiva a autenticidade: liberta-te do que os outros pensam.

Cultiva a autocompaixão: liberta-te do perfecionismo.

Cultiva um espírito resiliente: liberta-te do adormecimento e da impotência.

Cultiva a gratidão e a alegria: liberta-te da escassez e do medo do desconhecido.

Cultiva a intuição e confia na fé: liberta-te da necessidade de certeza.

Cultiva a criatividade: liberta-te da comparação.

Cultiva o lazer e o descanso: liberta-te da exaustão enquanto símbolo de estatuto e da produtividade enquanto fonte de autoestima.

Cultiva a calma e a tranquilidade: liberta-te da ansiedade enquanto estilo de vida.

Cultiva o trabalho com significado: liberta-te da dúvida e de suposições.

Cultiva o riso, a música e a dança: liberta-te da ideia de ter tudo sob controlo.

 

Desenvolve as ferramentas que precisas para que consigas viver plenamente. Podes sentir-te aturdido/a, podes sentir-te surpreendido/a, podes querer saber mais, podes nem querer começar por agora. Está tudo certo. Seja qual for o resultado, aprecia os passos no caminho.

 

E sabe que não estás sozinha. Estamos cá para ti.

 

Cláudia Andrade – Psicóloga Clínica, Hipnoterapeuta e Directora Clínica na WeCareOn

 

Para este artigo foi realizada uma pesquisa que inclui as referências seguintes:

Brown, Brené (2015) A coragem de ser imperfeito, 2ª edição, Nascente, Lisboa.

Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) American Psychiatric Association (2014) Artmed Editora.

Smith, Emily Esfahani (2017) The power of meaning – crafting a life that matters, Ebury Publishing.