Alimentação e a vivência da sexualidade são assumidamente dois comportamentos que podem acarretar imenso prazer, sensação de plenitude e satisfação, tanto física, como emocional e psicológica!

Muitas são as vezes que se associa alimentação com a vivência da sexualidade. Quer seja, quando se equiparam legumes e/ou frutas a órgãos genitais sejam masculinos ou femininos. Ou até mesmo, em termos mais populares através do uso de expressões como “afiambrar”, “comer alguém”, “é cá um pão” entre muitos outros… Quantas vezes não se associa a combinação de morangos com chocolate ao cariz sexual?

Por um lado, e de acordo com a Hierarquia de Necessidades de Maslow, tanto a alimentação como a sexualidade se apresentam como Necessidades Básicas Humanas. E, por conseguinte, assumem o carácter de necessidades indispensáveis para a sobrevivência do organismo e do ser humano enquanto ser biológico atribuindo a sensação de bem-estar.  Por outro lado, a sexualidade e a alimentação, dependem de um vasto emaranhamento e conexões de inúmeros sistemas, tais como: muscular, neuro-endócrino, metabólico, hormonal e, ainda de componentes emocionais, culturais, religiosas, sociais.

Muitas são as vezes que associamos a alimentação a um encontro romântico… a uma festa, seja ela aniversário, casamento, jantar de amigos…. Assim, verifica-se que a alimentação está sempre associada a momentos que proporcionam prazer, alegria, felicidade, comemoração! Mas, também é comum se relacionar a alimentação a sentimentos de tristeza, desgosto…. Afinal, quem não conhece a famosa cena na tela de cinema em que após um desgosto amoroso, entre lágrimas e queixumes, lá vai mais um pote de gelado ou mais uma fatia de pizza?

 

Comportamento alimentar e sexualidade

 

Na literatura científica é amplamente descrito que ter um parceiro romântico afeta o comportamento alimentar e as experiências das refeições. Estudos sugerem que os homens tendem a beneficiar mais de relacionamentos românticos do que as mulheres. Tal pode acontecer porque as mulheres tendem a ter uma alimentação mais saudável em comparação com os homens. Por seu lado, as mulheres que tenham um relacionamento com um homem tendem a apresentar comportamentos mais desordenados para a perda de peso, tais como: o jejum, o uso de diuréticos e laxantes, entre outros. Tais estratégias podem ser utilizadas com o objetivo de obter um corpo mais magro, sendo aparentemente mais atraente, e assim agradar o parceiro.

Neste sentido, salienta-se a perceção da imagem corporal como sendo um fator determinante tanto na vivência da sexualidade como também no comportamento alimentar. Indivíduos que vivem uma relação de insatisfação, intranquilidade e turbulência com a sua imagem corporal tendem a apresentar mais alterações do comportamento alimentar (como a compulsão alimentar) e também maior interferência nas escolhas, oportunidades e vivências sexuais.

 

O amor! O sentimento que tem a capacidade de mudar comportamentos…

 

Amor! Sentimento que tem a capacidade de transformar vidas e trazer uma explosão de inúmeras sensações: desde prazer, passando pela confiança, carinho, ciúme, tristeza, felicidade, angústia e tantos outros, apresenta também a capacidade de alterar comportamentos, incluindo o alimentar. Devido às alterações hormonais decorrentes e de neurotransmissores, nomeadamente através do aumento da serotonina, da dopamina e da oxitocina, existe a sensação de felicidade, bem-estar, aumento da autoestima e a sensação de plenitude!

Nesta altura da vida é comum que se adquiram estilos de vida mais saudáveis em que muitas pessoas iniciam a prática regular de exercício físico e também implementam uma alimentação mais saudável. Estudos apontam que os parceiros românticos que compartilham uma refeição tendem a aumentar os níveis de cooperação e a ser indicativo de relações mais positivas e amigáveis. Os neurotransmissores falam por si, mas também cresce o desejo de se ter um corpo atrativo e sexualmente desejável.

Tal acontecimento pode dever-se ao facto de o sistema límbico moderar não uma, mas várias necessidades básicas humanas entre as quais a alimentação e a satisfação sexual. A perceção de prazer e o sentimento de satisfação que se obtém após se consumir uma refeição e da vivência da sexualidade estão ancoradas no hipotálamo.

O ato de comer e sentimentos de satisfação física, como o contacto sexual, podem equilibrar sentimentos negativos. Dentro dos sentimentos negativos destacamos, por exemplo: stress, ansiedade, raiva, tristeza, solidão, uma vez que existe a libertação de oxitocina.

 

Obesidade: onde a sexualidade se come

 

Baixa autoestima, maiores níveis de depressão, maior risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, de Diabetes, de alguns tipos de cancro, maior probabilidade de doenças músculo esqueléticas, diminuição da fertilidade, aumento da mortalidade e redução da qualidade de vida, são apenas algumas das consequências nefastas da obesidade.

Estudos atuais consideram a obesidade como uma síndrome metabólica. É considerada uma perturbadora epidemia a nível mundial no qual se estima que cerca de 30% da população europeia padeça desta patologia.

Muitos são os estudos que têm vindo a emergir que relacionam a sexualidade, com a obesidade, a alimentação e as alterações do comportamento alimentar, nomeadamente a compulsão alimentar. Neste sentido, a compulsão alimentar surge muitas vezes como um ato compensatório dos doentes obesos face às suas dificuldades emocionais e relacionais, onde o ato de comer substitui o prazer sexual. 

Várias publicações científicas corroboram: alterações do Índice de Massa Corporal (IMC) estão diretamente relacionadas com o interesse e vivência sexual. Pessoas obesas apresentam maior dificuldade em vivenciarem a sua sexualidade, menor qualidade de vida sexual, maior evitamento de encontros amorosos/sociais/sexuais, reduzida satisfação sexual, baixa autoestima e autoaceitação, maior probabilidade a possuírem relacionamentos não satisfatórios, auto reportam menos parceiros sexuais em comparação com indivíduos com IMC normal.

 Mulheres com maior IMC reportam menor qualidade nas suas relações, reduzida função e satisfação sexual e os seus parceiros masculinos julgam-nas menos atrativas e com menos vitalidade.

Quanto maior é a insatisfação sexual, maior será a frequência de comportamentos relativos à compulsão alimentar e maior é o IMC: indivíduos obesos com compulsão alimentar possuem pior funcionamento e satisfação sexual o que se associa com a impulsividade e a fome emocional. A alimentação compulsiva passa a ser um meio de escapar ao sexo, esconder desejos sexuais e pode-se apresentar como substituição do prazer sexual.

 

Do prazer no prato… ao prazer no quarto

 

Assim, torna-se imperativo a reeducação alimentar… O controlo e a perda de peso!

A importância da alimentação saudável não se cinge apenas na obtenção de corpo com um IMC normal! Vai muito para além disso: passa por aumentar a qualidade de vida, aumentar a autoestima, melhorar as relações afetivo-sociais, aumentar o desejo e interesse sexual e melhorar a vida sexual!

 

 

Acima de tudo, deverá possuir um bom relacionamento com o próprio corpo e com os alimentos!

 

 

Filomena Pereira –  Nutricionista @ WeCareOn