A avalanche de emoções é algo com que precisamos lidar. Não combater, não ignorar. É lidar.

 

Sempre que os nossos medos são despoletados, temos duas opções: suprimi-los ou encará-los. Precisamos entender a função das emoções. É importante compreendermos para que é que a emoção “x” está a chamar a nossa atenção, pois elas, a emoções, servem “apenas” para chamar a atenção da consciência para algo importante. Temos emoções que têm como gatilhos eventos externos (como a pandemia) e emoções com gatilhos internos (como uma memória).

 

Em tempos de pandemia, o que mais chama a nossa atenção é a mensagem do medo

 

E o que é que o medo quer de nós?

 

O medo quer alertar-nos para a potencial perda de algo que vemos como significativo. Em tempos de pandemia, isso pode ser muita coisa: desde você perder a vida, até perder a integridade física (ficar doente ou com sequelas), ou perder pessoas amadas, ou perder a segurança financeira, ou perder a segurança simbólica a respeito do mundo em que vive, a certeza de que as coisas têm algum nível de previsibilidade, etc., etc., etc.

 

Ao invés de nos enterrarmos no medo e reagirmos a ele compulsivamente, repreendendo, reclamando ou dramatizando, uma alternativa que lhe sugiro é esta:

 

  • Escute a chamada para a acção que a emoção proporciona.

 

Escutar o que ela tem de valor essencial embutido e ter uma acção em relação àquilo, para que você saia da “paralisia” para ter contacto com emoções que conectam, inspiram e geram compaixão.

 

Portanto, se há medo em perder a vida, digamos…

… o que há de tão importante que você teme tanto perder?

 

Se tem medo de perder um parente próximo…

… o que você teme perder ao ver-se sem essa pessoa?

 

Mas, indo um pouco mais além…

O que você pode fazer para se tranquilizar? Conversar? Dizer o quanto a ama? O quanto ela importa? O que mais?

 

É essencial converter o medo em afectos positivos. Ou seja, em amor, compaixão, cuidado, gentileza.

 

Quando você se sente ansioso por perder coisas que lhe são caras, a sua mente pode imaginar o pior cenário possível.

 

O stress antecipatório é quando a mente vai para o futuro e imagina o pior. Para se acalmar, você precisa entrar (e manter-se) no presente. Existe uma técnica bem simples (para quem meditou ou praticou a atenção plena é prática habitual), mas muitas pessoas surpreendem-se sempre com o quão prosaico este exercício pode ser.

 

Você pode nomear cinco coisas na sala onde está. “Há um computador, uma cadeira, uma fotografia, um tapete e uma chávena de café…”. É simples assim. Respire. Perceba que, no momento presente, nada do que você antecipou aconteceu. Neste momento, você está bem. Você tem comida. Você não está doente. Use os seus sentidos e ganhe consciência sobre o que eles estão a percepcionar. “A mesa é dura. A colcha é macia. Eu posso sentir a respiração a entrar no meu nariz.” Isso realmente funcionará para atenuar um pouco dessa dor.

 

Você também pode pensar em como desapegar-se ou abrir mão daquilo que não pode controlar. O que seu vizinho faz ou deixa de fazer está fora de seu controlo. O que está no seu controlo é ficar a dois metros de distância e lavar as mãos, por exemplo. Concentre-se nisso.

 

Finalmente, é um bom momento para desenvolver um estado de ser mais compassivo consigo mesmo(a). Todas as pessoas têm níveis de medo e tristeza e isso manifesta-se de maneiras diferentes. Se percebeu que um colega de trabalho ficou inusitadamente irritado consigo pense: “Isto não é característico desta pessoa; deve ser assim que ele está a lidar com tudo isto. Consigo perceber o medo e a ansiedade dele”. Então seja compassivo também com os outros. Pense na forma como a pessoa é geralmente e não na forma como ela pareceu ser “naquele” momento.

 

Um aspecto particularmente ‘stressante’ desta pandemia é a sua indeterminação no tempo

 

Este é um estado temporário. Ajuda dizer isto. Confie e valorize os profissionais que trabalham no sistema de saúde. Eles são treinados para situações como esta. As precauções que estamos a tomar são as correctas. A história diz-nos isso. Somos passíveis de sobrevivência. Nós vamos sobreviver. Este é um momento para nos superprotegermos, mas não para exagerarmos.

 

Ser generoso com a forma como enfoca a realidade pode ajudá-lo(a) a afastar alguns dos seus mais temerosos e negativos pensamentos negativos.

 

Sara Ferreira – Psicóloga, Psicoterapeuta, Membro Efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses