O trabalho é uma das áreas mais importantes da nossa vida. Em média, uma pessoa adulta trabalha cerca de 40 horas por semana. A influência do trabalho na qualidade de vida varia num espectro que vai desde uma fonte de prazer e propósito a uma fonte de sofrimento e, em alguns casos, de doença mental.

 

O impacto negativo do trabalho tem sido descrito, entre outras, através da síndrome de burnout.  Apesar de não ser considerada uma doença em si mesma, a Organização Mundial de Saúde (OMS), considera a síndrome de burnout um fator com influência direta no estado de saúde global e que pode justificar o recurso a serviços de saúde.

 

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Na 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças da OMS, este fenómeno, de natureza ocupacional, é definido como “uma síndrome conceptualizada como resultante de stress laboral crónico, que não foi gerido com sucesso”. É caracterizado por três dimensões:

  • Sentimentos de depleção de energia e cansaço;
  • Distanciamento mental em relação ao trabalho ou sentimento de negatividade ou cinismo em relação ao mesmo;
  • Eficácia profissional diminuída.

 

Na sua definição, a OMS acrescenta ainda que

“O burnout refere-se especificamente a um fenómeno de natureza ocupacional e não deve ser aplicado para descrever experiência noutras áreas de vida”.

 

Apesar da circunscrição da aplicação do conceito ao campo laboral, esta fonte de cansaço, cinismo e diminuição de eficácia pode ser descrita em relação a outras ocupações não laborais. Um dos melhores exemplos será a ocorrência de sintomas da mesma natureza em cuidadores de pessoas com doença grave, como demência ou doença terminal, que condicione perda de autonomia pessoal e necessidade de cuidados constantes.

 

Manifestações de burnout

Apesar de as manifestações de burnout serem individuais, tendem a agrupar-se em três dimensões, previamente referidas, mas de seguida mais bem exploradas:

  1. Exaustão: Em condições ideias, o trabalho pode ser uma fonte de motivação, sentido de vida e de vitalidade – o trabalho alimenta-nos. No entanto, na síndrome de burnout, o contrário acontece, e o trabalhador pode sentir-se cansado, esgotado. Esta depleção pode manifestar-se em vários planos: no plano físico, pode manifestar-se com cansaço físico e cefaleias, por exemplo; no plano emocional, é comum um sentimento de “estar no limite”, com irritabilidade e labilidade emocional; no plano mental, a exaustão pode manifestar-se por dificuldades cognitivas, como défice de atenção, memória de trabalho, capacidade de tomar decisões e dificuldades no processamento de informação.

 

  1. Cinismo: Perante um trabalho percecionado como física, emocional e mentalmente esgotante, seja pelo trabalho em si ou pelas condições em que este decorre, o trabalhador pode encontrar no distanciamento emocional um mecanismo de proteção. Este afastamento, que pode ser consciente ou inconsciente, apesar de poder ser momentaneamente adaptativo, com o tempo origina um sentimento de adormecimento e de vazio. Algumas pessoas podem descrever esta vivência como “sentir-se como uma robot ou como um zombie”, estando dissociadas dos seus sentimentos e emoções, como se nada as afetasse. O trabalho é feito de forma mecânica, acompanhando um sentimento de se estar “morto por dentro”. Externamente, este estado psicoafectivo pode manifestar-se através de cinismo e frieza afetiva. Em profissionais que exigem o contacto com outras pessoas, o trabalhador pode sentir que, com o tempo, se tornou frio e insensível às vivências dos outros.

 

  1. Sentimento de diminuição de capacidade: Fruto do anterior, o trabalhador pode sentir que já não consegue desempenhar as suas funções como anteriormente, o que, por sua vez, agrava mais a síndrome de burnout, num processo de bola de neve.

De forma resumida, aquele que, no contexto da sua vida laboral, se sinta cansado, sem capacidade de tirar prazer do seu trabalho e incapaz de desempenhar as suas funções adequadamente, pode apresentar síndrome de burnout.

 

Quais são os fatores de risco para burnout?

A síndrome de burnout resulta da interação entre fatores individuais e laborais. A probabilidade de desenvolver síndrome de burnout é tanto maior quanto maior a vulnerabilidade individual e quanto piores as condições de trabalho.

Fatores de risco individuais:

  • Neuroticismo: tendência individual a preocupar-se excessivamente com vários assuntos e a focar-se em aspetos negativos das experiências;
  • Perfeccionismo: trabalhadores perfeccionistas colocam fasquias muito altas para as suas funções, o que aumenta a probabilidade de, com o tempo, se virem a sentir cansadas e frustradas quando tais objetos, demasiados elevados, não são atingidos;
  • Ausência de fatores de resiliência fora do trabalho: hobbies, vida social, exercício físico, etc.

 

Fatores de risco laborais:

  • Ambiente de trabalho crítico e com pouco reforço positivo;
  • Bullying no ambiente de trabalho (também conhecido como mobbing);
  • Alta carga de trabalho;
  • Prazos apertados;
  • Funções mal definidas;
  • Relações interpessoais de pouca qualidade no local de trabalho;
  • Ausência de reconhecimento das qualidades e do esforço investido no trabalho;
  • Tratamento desigual entre trabalhadores, originando sentimentos de injustiça.

 

Independentemente destes fatores, de natureza geral, sabe-se que algumas profissões acarretam maior risco de burnout, como é o caso de professores e profissionais de saúde.

 

De acordo com a Escola Nacional de Saúde Pública, 72% dos profissionais de saúde apresenta níveis médios a elevados de burnout. Estes níveis excessivamente altos podem dever-se ao contexto atual de pandemia, que coloca exigências excecionais nos profissionais de saúde, bem como a características inerentes à profissão – segundo a mesma fonte, quase metade dos profissionais dorme menos de 6 horas e não tem tempo para praticar nenhum tipo de exercício físico.

 

Quer saber mais sobre Burnout

 

Quais os impactos da síndrome de burnout?

A síndrome de burnout está associada a sofrimento pessoal e diminuição do desempenho laboral. Além disso, pode ser um fator de risco para doenças médicas e psiquiátricas, devido aos efeitos do stress crónico sobre a saúde física e mental.

 

Algumas pessoas com síndrome de burnout podem desenvolver episódios depressivos. Ao contrário do que acontece na síndrome de burnout, nos episódios depressivos o mal-estar é extensível a várias áreas da vida, não só ao trabalho; a pessoa pode ter uma diminuição marcada da autoestima e culpabilidade em relação a vários aspetos da sua vida; pode ver diminuída a sua capacidade de disfrutar dos vários prazeres da vida, desde as relações familiares aos hobbies. Em alguns casos de depressão, podem surgir pensamentos suicidas – estes são não um sinal de fraqueza da pessoa que padece de depressão, mas um sintoma da própria doença.

 

Se tem tido pensamentos relacionados com a morte, peça ajuda junto de amigos e familiares e dos serviços de saúde mais próximos, como por exemplo junto do seu médico de família ou serviço de urgência da sua área de residência. Pode, ainda, recorrer a diversas linhas de apoio. Para isso, pode consultar algumas linhas no website da Sociedade Portuguesa de Suicidologia (https://www.spsuicidologia.com/sobre-o-suicidio/telefones-uteis)

 

Em profissionais de saúde, especificamente, a síndrome de burnout associa-se a maior probabilidade de erros médicos, menor satisfação dos utentes com os cuidados prestados e menor adesão terapêutica.

 

O que fazer perante a síndrome de burnout?

 

Tal como a síndrome de burnout depende de fatores intrínsecos ao trabalhador e de fatores laborais, também a intervenção é feita simultaneamente no trabalhador e no trabalho. Abaixo enumeram-se algumas estratégias que pode adotar perante sintomas de burnout. Muitas vezes, pode ser mais fácil adotar tais estratégias através de ajuda especializada, obtida junto de psicoterapeutas sensibilizados para as problemáticas da relação entre trabalho e saúde emocional e mental.

  • Coping: O coping refere-se à forma como lidamos com problemas vivenciais, sendo um processo consciente. Diferentes estratégias de coping podem ser mais ou menos adaptativas. Exemplos de estratégias pouco adaptativas incluem o refúgio no álcool ou o recurso a estratégias de evitamento (por exemplo, através de faltas ao trabalho). As estratégias adaptativas são geralmente divididas em dois grandes grupos: estratégias de resolução de problemas, que se focam no problema em si (neste caso, o trabalho), e estratégias emocionais, que se focam nas emoções geradas pelo problema.

 

Dentro das estratégias de resolução de problemas, é importante identificar o problema de forma clara e objetiva, informar-se sobre o que pode e o que não pode ser feito, questionar-se a sim mesmo o que está disposto e não disposto a fazer, obter as ferramentas necessárias para fazer o que pode ser feito, e pôr o plano em ação. Este plano pode incluir, entre outros, delegar tarefas, reduzir o horário de trabalho, definir com clareza que funções são da sua competência e quais não são, ou aprender a dizer que não.

 

Igualmente importante é identificar o que não pode ser mudado e aceitar esse facto, sem se consternar desnecessariamente com ele – como diz o ditado, o que não tem solução, solucionado está. Neste caso, importam mais as estratégias de coping emocionais, ou seja, para lidar com as emoções que emergem em si perante o que não pode ser mudado.

 

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Quanto às estratégias de coping emocionais, estas requerem a identificação das várias emoções que possa surgir (raiva, ódio, tédio, inveja, cansaço, etc.) e a gestão proativa das mesmas – aceitação, sublimação através da expressão artística, verbalização de sentimentos junto de amigos ou técnicos de saúde mental, mindfulness, etc. Outra forma de lidar com as emoções consiste em transformar uma emoção negativa numa ação positiva – por exemplo, a raiva pode ser um canalizada, de forma positiva, para ativismo.

  • Autocuidado: O trabalho é uma parte importante das nossas vidas – mas só uma parte. Fora dele, é importante criarmos espaço para cuidarmos de nós próprios, através de hobbies, atividades sociais, exercício físico regular e dieta equilibrada. O investimento em nós próprios é o maior investimento que podemos fazer. Este investimento deve ser fruto de uma descoberta pró-ativa.

 

Para se ter uma vida equilibrada, já ouviu falar desta dica? Todos temos 24h no dia e se dividirmos em 3 grandes blocos, o ideal era que estivessem em equilíbrio desta forma:

8 horas de trabalho

8 horas de descanso

8 horas de lazer

 

  • Exija os seus direitos: Como referido acima, um dos fatores de risco para síndrome de burnout é a perceção de assimetrias e injustiças no local de trabalho. Enfrentar tais injustiças pode ser difícil quer do ponto de vista pessoal (sobretudo se for uma pessoa tímida, com dificuldade em se impor ou com receito de rejeição) quer do ponto de vista institucional (por vezes, os pedidos de reparação de injustiças são ocultados ou ignorados).

 

Algumas vezes, o trabalhador pode protelar a exigência dos seus direitos até que a situação se torne insuportável – o paradoxo é que, não raras vezes, nessa altura já se instalou uma síndrome de burnout, cujos sintomas (como cansaço, desesperança e apatia) impedem, eles mesmos, a tomada de qualquer ação. Outras vezes, há o receio de retaliação por parte das chefias e de agravamento subsequente das condições de trabalho.

 

Por tudo isto, é fundamental procurar apoio junto de terceiros, como amigos, familiares, outros colegas de trabalho e sindicatos, quando estes existem. Igualmente importante é estar bem informado sobre os seus deveres e direitos, o que pode ser facilitado pelos grupos sindicais – afinal, conhecimento é poder. O processo de reclamação de direitos pode ser facilitado, em algumas pessoas, pelo treino de competências de comunicação interpessoal. Atualmente, existem vários modelos de treino de comunicação, sendo os mais conhecidos os modelos da Comunicação Não Violenta e a Comunicação Assertiva.

 

  • Melhoria das condições de trabalho: Segundo a OMS, intervenções focadas em melhorar as condições de trabalho organizam-se em três pilares: 1) proteger a saúde mental dos trabalhadores através da redução dos fatores de risco laborais (enumerados acima); 2) promover a saúde mental dos trabalhadores através do desenvolvimento das potencialidades únicas de cada trabalhador; 3) fazer face a problemas de saúde mental (como episódios depressivos e perturbações de ansiedade), independentemente da causa.

 

Sendo uma profissão de risco para burnout, algumas estratégias foram especificamente estudadas em profissionais de saúde. Entre outras, algumas estratégias incluem:

  • Recorra a intervisão e supervisão de casos, por forma a dividir a responsabilidade de decisões clínicas complexas;
  • Defina horários próprios para atividades burocráticas, como redação de relatórios clínicos;
  • Quando necessário, explore as emoções dos seus doentes – a evidência mostra que profissionais de saúde que, a longo prazo, evitam envolver-se com os seus doentes têm maior probabilidade de burnout;
  • Procure ajuda interpares, por exemplo através de grupos Balint (pode procurar grupos Balint na sua área através do website da Associação Portuguesa de Grupos Balint (https://www.balintinternational.com/user/apgb/)
  • Recorra a consultas não-presenciais, adequadamente agendadas, para redigir relatórios e consultas resultados de exames, programando bem o seu tempo para cada tarefa.

 

Independentemente dos fatores etiológicos implicados e do melhor caminho para a recuperação, pode ser necessário obter ajuda profissional. O trabalho ocupa uma grande parte das nossas vidas, tão grande que não podemos permitir que ele seja uma fonte de sofrimento e de deterioração da saúde.

 

Especialmente para si, se é profissional de saúde (mais se tem falado agora no stress e burnout nesta classe, fruto da pandemia), pense em si. Para cuidar dos outros, cuide de si primeiro! Não raras vezes, aqueles que mais ajudam são os que mais dificuldade têm em pedir ajuda…

 

Aqui na WeCareOn temos uma equipa especializada que pode ajudar a criar estratégias para reduzir o stress laboral e que claramente impacta na sua vida pessoal também.

 

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Estou disponível para conversarmos, uma vez que passo grande parte da minha semana em contexto hospitalar e conheço a realidade actual que se vive no país.

Fábio Monteiro Silva – Psiquiatra @WeCareOn