O Psicólogo na Escola – Que caminho(s)?

Recentemente, fui entrevistada por uma aluna finalista do Ensino Secundário, no âmbito da realização do seu portefólio, acerca do Estado da Psicologia da Educação no nosso País – mais propriamente no que diz respeito ao trabalho do Psicólogo nas Escolas. Partilho alguns excertos desse momento, convidando o leitor a reflectir acerca da importância da intervenção psicológica neste contexto, bem como da (in)capacidade de resposta que, infelizmente, as nossas Escolas apresentam.

“Com a divulgação dos casos de bullying mais recentes, surgiram várias notícias e entrevistas a psicólogos que disseram existir falta de psicólogos tanto nas escolas, como em outros espaços (hospitais, prisões). Concorda? Porquê?”

A área da Psicologia começa, lentamente, a crescer e merecer a atenção e reconhecimento por parte não só da sociedade, como dos serviços e instituições públicas. No entanto, infelizmente, a Saúde Mental ainda é delegada para segundo plano, sendo muitas vezes considerada como um “Serviço de Luxo”, pelo fraco investimento e ausência de incentivos por parte do Estado. O número de Psicólogos nos Serviços Públicos (Sistema Nacional de Saúde, Escolas, Estabelecimentos Prisionais) é, claramente, insuficiente, para fazer face aos inúmeros pedidos que, diariamente, são feitos junto destas instituições públicas, “forçando” as pessoas a recorrer aos serviços privados, o que acarreta um custo acrescido às rendas mensais das famílias portuguesas, que, sabemos bem, já são bastante elevadas, considerando os rendimentos que auferem. Desta forma, e como já referi, as pessoas acabam por priorizar outros bens ou serviços, que consideram essenciais, colocando de parte os Serviços de Psicologia.

“Fiz um inquérito recentemente em que, surpreendentemente, houve um número considerável de pessoas que disseram que os psicólogos não “faziam muita falta”. Acha que as pessoas ainda pensam desta forma, porque não conhecem o trabalho dos psicólogos devido (também) à falta de investimento nesta profissão por parte do Estado português?”

Penso que, em parte, as respostas que obteve poderão ter origem na ausência de conhecimento acerca do papel do Psicólogo. Ainda existem muitos mitos acerca do que é a Psicologia e qual a sua importância na promoção e manutenção da Saúde Mental, apesar do reconhecido esforço por parte da Ordem dos Psicólogos Portugueses nesse sentido. Por outro lado, e no caso específico das Escolas, a escassez de recursos, no que toca à Psicologia, dificulta bastante o trabalho do técnico, que se vê a braços, para conseguir dar resposta a centenas de casos, muitos dos quais, necessitariam, provavelmente, de acompanhamento semanal e não o têm. Como em qualquer tratamento, a sua eficácia está directamente relacionada com a periodicidade do mesmo, ora, se o Psicólogo não consegue acompanhar com a frequência desejável o aluno, o sucesso da sua intervenção fica, à priori, comprometido, criando, no jovem, a ideia de que é “ineficaz” e, portanto, desnecessário.

“Para terminar, gostava de pedir que comentasse a situação atual da psicologia em Portugal.”

Como referi anteriormente, a Psicologia já começou a dar os primeiros passos, no nosso País, encontrando-se, de momento, já em estado de maturação. Um marco sem dúvida importante, consistiu na criação da Ordem dos Psicólogos Portugueses, que veio não só regulamentar a profissão, como divulgar, esclarecer a função do Psicólogo na sociedade e comprovar a sua eficácia (existe um estudo já feito, pela OPP acerca do Custo-Efectividade da Intervenção Psicológica nos Cuidados de Saúde). A Psicologia é hoje uma profissão reconhecida, em crescendo, no que toca à investigação, e que começa a dar sinais de reconhecimento na comunidade científica internacional. O processo de sensibilização da comunidade, deve ser, no entanto, um processo contínuo, visto ainda existirem algumas ideias distorcidas acerca da nossa função.

Beatriz Abreu – Psicóloga @ WeCareOn

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