Qual o limite do positivo?

Num mundo onde tudo tem de ser positivo, devemos pensar positivo, sentir positivo, como sermos verdadeiramente honestos com a nossa humanidade? Portanto, qual é o limite do positivo? A nossa psicodinâmica não é positiva nem negativa, é complexa. E é o reconhecimento disto que nos permite por em ação o desenvolvimento pessoal.

Tem me angustiado muito o apelo sem crítica à atitude positiva, como se pudéssemos apertar um botão dentro de nós, de acordo com as indicações de um outro, e simplesmente anular todos os conflitos, todas as questões individuais, que surgem com base no vivenciar da nossa própria história de vida.

Subscrevo integralmente o Dr. Micheael Mahoney no seu livro Processos Humanos de Mudança – As bases científicas da psicoterapia, quando nos ensina que “(…) ajudar é consideravelmente mais desafiador do que muitos livros e manuais de tratamento possam admitir. As miraculosas soluções prometidas pelas prescrições de felicidade populares são frequentemente um insulto à dor, à luta e à perseverança demonstrada por muitos clientes de psicoterapia.”

O perigo do culto cego ao positivo está no silenciar da dor, das dificuldades, das dúvidas, pois se nem no âmbito do desenvolvimento pessoal, que é íntimo e confidencial, pudermos falar sem censura e ser escutados, independentemente do conteúdo, como cresceremos e alcanceremos mais saúde mental?

Não adianta explorar potenciais, quando há uma bagagem imensa de culpa e hostilidade relacionada com os mesmos. Os consultórios não se podem tornar mais um local onde os clientes vão dizer aquilo que o outro, terapeuta, espera ouvir. O ambiente clínico e a relação terapêutica são muito mais desafiadores do que o mero incentivo à autenticidade, conforme os ideais do terapeuta, e envolvem um trabalho conjunto árduo de escuta e de acolhimento.
Somente confrontando-nos com os nossos erros e dificuldades, reconhecendo-os e compreendendo-os, teremos mais força e resiliência.

Portanto, como terapeutas, não calemos a dor, temos de ir além do limite.

 

​Por Marcela Alves, Psicóloga

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