Terapia Brainspotting e o Desporto de Alta Competição

terapia brainspotting aplicada ao desporto

Este artigo tem como objetivo apresentar uma nova abordagem psicoterapêutica para o tratamento de diversas problemáticas emocionais, físicas, comportamentais e relacionais. A Terapia Brainspotting.

 

Aborda-se de forma explicativa como foi desenvolvida, quem é o seu fundador, em que consiste, quais as aplicações, e quais as vantagens e benefícios deste novo modelo terapêutico.

 

Salienta-se ainda, e de forma particular, a aplicação da Terapia Brainspotting no campo desportivo, enquanto modelo terapêutico de cura emocional com impacto físico através:

  • Da diminuição/eliminação da ansiedade e insegurança, muitas vezes associadas à performance e/ou à exposição pública;
  • Do desbloqueio emocional associado a determinado desempenho ou performance física;
  • Do evitamento de lesões desportivas, e do medo de voltar a lesionar-se.

 

Explica-se o porquê de determinadas lesões se repetirem e também, o porquê de determinados bloqueios de performance/execução.

 

Esta terapia oferece ainda a fantástica possibilidade potenciar a performance desportiva e ampliar a criatividade.

 

O que é a Terapia Brainspotting?

 

É um método de tratamento focalizado, que funciona identificando, processando e libertando fontes neuropsicológicas de dor física e emocional (traumas, dissociações e outros sintomas, tais como os de ansiedade e pânico).

 

Brainspotting é uma abordagem psicoterápica que se desenvolveu a partir da observação de que as emoções e sensações físicas sentidas ao se relatar um evento traumático têm ressonância com um ponto no campo visual. A palavra é a junção dos termos em inglês cérebro (brain) e ponto ou local (spot).

 

Descoberta e desenvolvimento da Terapia Brainspotting

 

O Brainspotting (BSP) foi descoberto e desenvolvido, em 2003, por David Grand, Ph.D um terapeuta de Nova Iorque (Manhatan), na altura já com mais de 20 anos de experiência clínica. Teve formação psicanalítica e também em duas abordagens psicoterapêticas usadas no tratamento do trauma: o Eye Movement Desensitization and Reprocessing (EMDR) e a terapia somática. David Grand era experiente no tratamento de vítimas de trauma, tendo atendido socorristas, sobreviventes e familiares de vítimas do atentado de 11 de setembro de 2001.

 

A descoberta da Terapia Brainspotting ocorreu a partir da observação de um evento inesperado, durante uma sessão de EMDR. Grand desenvolveu uma adaptação do EMDR, o EMDR fluxo natural. Nessa abordagem, solicita-se ao cliente que pense na imagem da experiência traumática que quer trabalhar, associada à emoção, à sensação física e à crença negativa que a lembrança desperta, enquanto acompanha o movimento dos dedos do terapeuta, que traça muito lentamente uma linha horizontal ao nível dos olhos do cliente. E durante uma destas sessões – com uma jovem cliente de 16 anos, patinadora no gelo, que apresentava um bloqueio para realizar um salto específico – enquanto ela acompanhava o movimento dos dedos, Grand notou que, em determinado ponto, os olhos dela “tremeram” e se fixaram num ponto.

 

De forma intuitiva, ele manteve os dedos nesse ponto e nos 10 minutos seguintes, surgiram relatos de eventos traumáticos que até àquele momento não haviam sido mencionados. Mas também, eventos já explorados, mas que foram trabalhados e processados de maneira mais profunda, o que chamou a atenção do terapeuta, pois já estava a trabalhar com essa cliente há cerca de 1 ano, e tinham já processado muitos traumas, tanto ligados ao desporto como fora dele (rejeição materna, desavença parental e divórcio dos pais quando ela tinha 6 anos, histórico prolongado de lesões, falhas e humilhações na área do desporto). Apesar disso, permanecia a dificuldade para realizar um determinado salto específico, o qual não é considerado particularmente difícil para a maioria dos patinadores de gelo.

 

O que tornou esse evento mais marcante foi que, na manhã seguinte, a cliente/patinadora lhe telefonou muito feliz, pois tinha conseguido realizar o tal salto diversas vezes durante o treino, e nunca mais teve dificuldades para o realizar. Grand passou a usar o mesmo procedimento com outros clientes, quando observava um movimento ocular que chamava sua atenção, mantinha os dedos na posição em que o movimento ocorria. Percebeu que, com muitos clientes, ocorria um fenómeno semelhante ao que observara no caso da patinadora do gelo: o processo se aprofundava, surgiam novas associações e lembranças.

 

Como vários dos seus clientes eram terapeutas, eles começaram a questionar o que o terapeuta estava a fazer. Grand explicava-lhes e eles usavam o mesmo procedimento com os clientes deles. E assim, Grand começou a receber feedback de que seus clientes/terapeutas também estavam a obter bons resultados.

 

Procedimentos básicos do Brainspotting

 

Cada cliente tem um pedido específico e para trabalhar o tema pertubador, gerador de stress emocional ou desconforto físico, é feito o rastreio ocular. Isto é, traça-se muito lentamente uma linha horizontal ao nível dos olhos do cliente a fim de encontrar o ponto ocular relevante, o chamado de brainspot – que corresponde a uma orientação oculomotora que se associa a uma rede neuronal que contém a memória ‘traumática’ que falhou na sua integração/ ou processamento de informação.

 

Nesse ponto específico, ocorrem determinados movimentos involuntários, que denotam a existência do brainspot, tais como:

  • Tremor dos olhos ou da face;
  • Piscadelas;
  • Mudança de expressão facial;
  • Movimentos de lábios ou língua;
  • Deglutição;
  • Suspiro;
  • Entre outros.

 

Estes movimentos involontários dão sinal de que a rede neural foi ativada, permitindo acesso ao circuito de memória que gravou o evento no momento em que ocorreu, pelo que há uma ressonância emocional e física de ‘reviver’ o evento (por ativação do sistema nervoso autónomo, simpático).

 

Quando o terapeuta observa externamente esses sinais no cliente a partir de determinada posição ocular, David Grand chamou a essa maneira de localizar pontos/brainspots, de método da janela externa; esta ocorria através da observação de movimentos involuntários do cliente, enquanto acompanhava o traçado lento de uma linha imaginária horizontal ao nível de seus olhos, estando mobilizado a partir da questão que desejava trabalhar.

 

À medida que Grand tentava localizar pontos pelo método da janela externa, alguns clientes começaram a guiá-lo, dizendo para qual ponto estavam a olhar, no qual sentiam maior mobilização em relação a questão trabalhada. Por exemplo, diziam “é um pouco mais para a direita” ou “acabou de passar por ele”. Então se constatou que o cliente pode perceber internamente uma maior ou menor ativação de acordo com o local para onde olha. Esse outro método de localizar brainspots foi chamado de janela interna.

 

Finalmente, a terceira maneira de localizar um brainspot é através da observação de locais para onde o cliente olha espontaneamente ao falar de uma questão. Há clientes que olham fixamente para um ponto no espaço enquanto relatam ou pensam naquilo que os incomoda self-spotting, e a estes pontos se chama de pontos espontaneos ou gazespots.

 

Em seguida, pergunta-se se se esta a sentir “ativado”. Esta ativação (neurobiológica) tem efeitos psicofisiológicos, e traduz o que é percebido internamente pelo cliente. Seja emocional ou físico/sensação física, quando pensa ou fala sobre determinada situação ou acontecimento. Essa ativação, ou desconforto sentido, é classificado, ou seja quantificado numa escala (Escala de SUDS – Subjective Units of Distress Scale). De 0 a 10, onde 0 significa nenhuma ativação e 10 é o máximo de ativação que a pessoa consegue conceber. E, em seguida, pergunta-se onde a pessoa sente a ativação no corpo.

 

Com o cliente ativado em torno da questão, localiza-se um brainspot por um dos métodos descritos anteriormente, e pede-se que o cliente simplesmente olhe para o ponto e observe o que acontece, o que surge mentalmente, como o corpo reage, apenas tomar consciência disso, estar atento ao que surge, procurando não criticar ou interferir no processo. Realiza-se, então, o processamento da questão até que o valor na SUDS chegue a 0.

 

Aplicação Clínica da Terapia brainspotting

 

O brainspotting tem sido usado no tratamento psicoterápico de diversas situações. Frequentemente é usado no tratamento de eventos traumáticos – desde quadros de transtorno de stress pós-traumático (TEPT) até eventos que foram marcantes e desagradáveis para o cliente, mesmo não acarretando TEPT. É comum verificar que existem vivências traumáticas subjacentes a queixas ou sintomas.

 

Por exemplo, pode haver queixas de dificuldades relacionais atuais e, ao se trabalhar com o cliente, verificam-se associações com vivências anteriores marcantes que contribuíram para moldar a maneira como ele se relaciona e para formar sua autoimagem. Essas vivências podem, então, ser abordadas especificamente com o brainspotting. Elas podem ter ocorrido no início da vida, no período pré-verbal ou fase gestacional. Não há memórias episódicas nem factuais dessas vivências, porque o início da capacidade de formar esse tipo de memória ocorre em torno dos 2 anos de idade, quando se inicia a fala/linguagem. Por outro lado, há memórias implícitas, de sensações físicas e emocionais referentes a esse período.

 

Como a terapia brainspotting tem ênfase no não verbal, nas sensações físicas, no corporal, e postula-se que consiga acessar mais especificamente estruturas subcorticais, ele conseguiria acessar e trabalhar vivências dessa época crucial para a estruturação do indivíduo. Outra área onde o brainspotting tem sido aplicado e no aprimoramento da performance de profissionais como atletas, atores, músicos, dançarinos e cantores.

 

Bloqueios na performance também estão frequentemente ligados a vivências traumáticas. E o brainspotting permite não só tratar/resolver as vivências que contribuem para os bloqueios, “restaurando” o desempenho a um nível anterior mas, também pode, ajudar na expansão da performance, ou seja, é capaz de ampliar, aperfeiçoar e expandir a performance a níveis superiores não antes pensados ou vividos.

 

Outras Indicações

Pessoas de todas as idades podem usufruir dos benefícios do Brainspotting tanto para a terapêutica como para a otimização do desempenho. Além da elevada eficácia nas Perturbações de Ansiedade e de Pânico, pode ser administrado em casos de:

  • Fobias e medos;
  • Perturbação Depressiva /Depressão Pós-Parto;
  • Perturbação Bipolar;
  • Transtorno da Personalidade Borderline;
  • Traumas;
  • Hiperatividade e déficit de atenção;
  • Transtornos de sono (insónia e pesadelos recorrentes);
  • Enxaqueca e Cefaleias Crónicas;
  • Dor Crónica;
  • Gaguez.

 

Como funciona 

 

O Brainspotting é uma ferramenta neurobiológica, chegando a experiências e sintomas que normalmente estão fora do alcance da mente consciente. Simultaneamente é considerado, como uma forma de diagnóstico e de intervenção. O seu efeito é intensificado com o uso de sons bilaterais (música bilateral) que oferecem contenção e controlo ao paciente.

 

Trabalha-se com o cérebro profundo e com o corpo através do acesso direto ao Sistema Nervoso Autónomo e Límbico. Como tal, o Brainspotting é um método de tratamento que tem resultados psicológicos, emocionais e físicos.

Um brainspot (ponto específico no cérebro) é a posição ocular relacionada com a ativação energética e emocional de um tema perturbador. É localizado através da posição ocular, e corresponde a um subsistema fisiológico que armazena a experiência perturbadora em forma de memória.

 

Quando um brainspot é estimulado, o cérebro profundo (ver abaixo) assinala, dá sinais, de forma reflexa (movimentos involuntários acima descritos) ao terapeuta que foi localizado uma área significativa. O foco de atenção e concentração no que emerge, surge mental, emocionalmente e através de sensações físicas, estimula um processo profundamente integrador e curativo d(n)o cérebro.

 

Princípios

 

A seguir são descritos alguns princípios que fundamentam e orientam o trabalho com brainspotting.

 

Implicações de conhecimentos da neurociência

 

No brainspotting, há ênfase para que o terapeuta leve em consideração as implicações de conhecimentos da neurociência no seu trabalho. O cérebro tem em média 10 bilhões de neurônios e 1 quadrilhão de sinapses; a maior parte do seu funcionamento ocorre fora da consciência e do controle voluntário, e as inter-relações entre o cérebro e o restante do corpo são complexas e não totalmente conhecidas. Contudo, sabemos que um brainspot corresponde a uma resposta de orientação oculomotora de uma vivência traumática que ficou “armazenada” devido à não resolução e integração da informação nela contida. Acessar esse ponto e manter o olhar direcionado para ele durante o tratamento da vivência traumática permite a sua resolução/ processamento.

 

É como se o ponto correspondesse ou “marcasse” a resposta não completada, e olhar continuamente para ele durante o processamento fornecesse e mantivesse aberta uma porta de entrada para o trauma, pelo mesencéfalo, ou seja, em um nível sensorial, não verbal, não controlado conscientemente, para que a resposta – que envolve diversas estruturas cerebrais, inclusive corticais – se completasse.

localização de brainspots

 

Através da localização de brainspots é possível ativar a rede neural que contém/ gravou a memória traumática, permitindo acesso a nível subcortical, ativando as regiões médias pré-frontais do cérebro (isocórtex granular e agranular que permite a autorregulação), o sistema límbico (ou cérebro emocional) e o cérebro profundo ou reptiliano (responsável pelo instinto de sobrevivência). Após ativação, e manutenção da atenção focada do cliente, ocorre a libertação das emoções, sensações corporais e cognições associadas a essa rede de memória, que é então processada.

 

Pelo que, terapias verbais, que fazem uso do diálogo, do pensamento/cognição e linguagem não conseguem aceder, pois ativam apenas o neocortex, as camadas neurais superficiais do cérebro. E os traumas são processados a um nível mais profundo subcortical.

E os traumas são processados a um nível mais profundo

 

A moldura da sintonia dual: neurobiológica e relacional

 

No brainspotting, há dois aspectos que funcionam como a moldura ou enquadramento da abordagem, que direcionam o trabalho, e aos quais o terapeuta deve estar constantemente atento: a sintonia neurobiológica e a sintonia relacional.

 

A sintonia neurobiológica é dada pela utilização do olhar em direção ao brainspot durante o processamento. O brainspot representa o ponto de maior ressonância com a ativação que o cliente sente, ou seja, há uma sintonia entre o que o cliente sente e esse ponto. Uma vez que o ponto é localizado, é como se o olhar do cliente em direção a ele, durante o processamento, fosse uma ancoragem neurobiológica, favorecendo um estado ótimo para que o processamento ocorra.

 

A sintonia relacional refere-se à sintonia na relação terapeuta-cliente, que se verifica através da aliança terapêutica, da capacidade empática do terapeuta, e da segurança e confiança sentidas pelo cliente. Há grande cuidado com a comunicação verbal e não verbal, atenção ao que o cliente diz, às palavras que usa, à sequencia das falas, e as suas reações físicas. O terapeuta recebe o que o cliente diz, sem fazer pressuposições, julgamentos ou análise. Há também um cuidado especial na maneira de estruturar perguntas ou fazer colocações. Procura-se criar um ambiente de segurança, confiança e respeito pelas vivências do cliente e pelas demandas que traz.

 

Uma comparação/metáfora que é utilizada a respeito desta sintonia usada na terapia brainspotting é a de um cometa, sendo esse o cliente, e o terapeuta é a sua cauda, uma vez que: é o cliente que lidera o processo, como a cabeça do cometa, e o terapeuta acompanha atentamente, procurando manter-se na cauda do cometa. Portanto, localizar e usar um brainspot não é um processo mecânico, mas dinâmico e de atenção focada e dual, sempre no contexto da relação terapeuta-cliente.

relação terapeuta cliente na terapia brainspotting

 

Uma das características marcantes do brainspotting é a ênfase nesses dois aspectos, combinando os benefícios terapêuticos de uma boa relação terapeuta-cliente, incluindo a comunicação verbal, com os benefícios da possibilidade de acessar áreas do cérebro que tem relação com aspectos não verbais associados as vivêncas do cliente, como é o caso das sensações físicas, que acompanham a memória e a ativação da rede neural que a contém.

 

Presença sem pressuposições ou julgamentos/ atenção mindful

 

Considerando o que já foi mencionado sobre a complexidade do nosso organismo e a consequente impossibilidade de explicar tudo o que observamos no trabalho com o cliente, e também considerando o aspecto essencial da sintonia relacional, o terapeuta deve observar o processo de maneira atenta e presente, como num estado de mindfulness. De maneira semelhante, pede-se ao cliente que observe o que se passa durante o processamento, procurando não criar expectativas, não julgar o que está a acontecer, mas simplesmente observar o que lhe acontece internamente. Ao se focar no brainspot, é como se o cliente estivesse num estado de mindfulness, de atenção plena e focada no que ocorre. Há evidências de que essa capacidade de autobservação, enquanto se trabalha um evento traumático, seria importante para o processamento e a resolução do trauma.

 

Importância das sensações corporais

 

A importância dada às sensações corporais e à percepção interna do cliente, fica clara na maneira como se localiza um brainspot pelo método da janela interna. Além disso, durante o processamento as sensações físicas que o cliente relata, podem ser usadas para acompanhar o processo.

 

Por que é dada essa relevância as sensações corporais?

 

O desenvolvimento do brainspotting foi influenciado por Levine & Frederick e por Scaer, que mostram que as vivências traumáticas ficam registadas no corpo; muitas vezes, essa permanência está relacionada a sintomas. Assim, pedir ao cliente que perceba as sensações físicas é como voltar o foco do processamento para o que pode ser uma manifestação física do trauma, o registo de componentes não verbais contidas nas áreas subcorticais do cérebro.

 

Daí que, lesões desportivas causam evidentemente trauma físico (no corpo) contudo, essas, contém uma componente emocional e também psíquica. Pelo que, bloqueios na performance desportiva, podem ser traduzidos em traumas desportivos acumulados no tempo, que emergem num determinado momento sem que haja compreensão ou conexão com a sua origem.

 

Brainspotting aplicado ao desporto

 

Uma lesão física é um trauma no sistema nervoso, que é sentida no lugar da lesão e alojada no cérebro. Uma lesão desportiva, é também uma lesão psicológica e a sua simultaneidade faz com que sejam registados conjuntamente, e como tal, ficam ‘presos’ e interligados no cérebro e no corpo, sendo acumulados ao longo do tempo.

 

Permitam-me a analogia, entre um trauma e uma mina terrestre. O sistema nervoso de um desportista é como um ‘campo minado’ e o Brainspotting atua como um laser detetor que através do campo visual explora e localiza os traumas retidos no cérebro e no corpo, tendo a capacidade de os desativar.

 

Um desportista é antes de mais, uma pessoa que antes de iniciar uma história desportiva, pré-existe uma história pessoal, emocional, relacional e familiar. Pelo que, no trabalho clínico ou terapêutico com um desportista, importa não apenas o seu historial desportivo ou de lesões desportivas, mas uma boa colheita de história pessoal (ver: caso prático)

 

Um desportista ao nível da alta competição, inicia a sua história desportiva muito cedo, na infância, e desde cedo lida com pressões internas e externas associadas à sua performance. Lidam com experiências de fracasso e de humilhação pública, vindas de colegas, de treinadores e muitas vezes, dos próprios pais e familiares.

 

Quantas não são as vezes que, após um impacto (pancada, queda, confronto físico…)  que gerou dor ou mesmo lesão, o desportista é incentivado e/ou forçado a continuar? Em resultado, aumenta a dor, agrava a lesão e piora o estado físico e emocional/psicológico do desportista.

 

Estas situações de humilhação, de fracasso na exposição pública, confronto/impacto físico, são experiências que ficam retidas em redes neuronais de memórias cuja carga psíquica, é culturalmente impedida de ser descarregada, por ser ‘vista’ como sinal de fraqueza. Pelo que estas memórias ficam ‘congeladas’ ou retidas instintivamente sob processos totalmente inconscientes no cérebro profundo, o qual ‘rege’ o instinto de sobrevivência e os sistemas de perceção de ameaça. Como vimos anteriormente, esta área do cérebro (subcortical) é a-verbal e não há acesso consciente. Daí que, a ocorrência de um bloqueio de performance/desempenho, um ataque de pânico, o ficar ‘paralisado, a ocorrência de uma lesão física é uma via de descarga dessa energia psíquica, o que explica as lesões repetitivas. E também, a falta de acesso consciente que explique a sua ocorrência em determinado momento.

 

Essas experiências, gravadas em memórias de eventos, geram sentimentos de frustração, vergonha, culpa, medo, perda de autoconfiança e de concentração, aumentando a insegurança e a ansiedade, piorando a performance e a execução da atividade desportiva.

 

Daí que o discurso interno de um desportista seja (negativo) muitas vezes sobre o medo de falhar; e em termos sintomáticos exiba: pensamentos automáticos e crenças desadaptativas, ansiedade de antecipação, comportamento de evitação, hipervigilância sobre sensações físicas, taquicardia (bater do coração acelerado), crises de pânico, tonturas, vômitos, caibras, tensão física ou muscular – que são todos sinais de trauma.

 

Estes sintomas não são causados pelos eventos ou experiências traumáticas, mas pela impossibilidade de descarga da energia psíquica gerada, a qual fica bloqueada/congelada no cérebro e no corpo, sendo mais tarde ativada por um evento ou estímulo semelhante, contudo inconsciente (pelo que se torna impossível ao desportista de saber ou ter acesso consciente) pois é um reflexo instintivo e protetor do cérebro profundo que regula o instinto de sobrevivência, de autopreservação. É daqui que flui o discurso interno negativo, e por isso suplanta o discurso consciente e trabalhado em muitas formas terapêuticas que fazem uso de estratégias verbais e conscientes, como diálogo positivo, motivacional, uso de relaxamento, etc.

 

Caso prático de terapia brainspotting aplica ao desporto

 

Este caso ilustra como uma experiência de medo pode ficar bloqueada/congelada no cérebro e ser ativada por uma determinada posição ocular (bainspot). Demonstra ainda a importância do passado de trauma e como este afeta o presente, e também a relevância da história pessoal para a resolução de um bloqueio desportivo.

 

  • Sara, 14 anos, nível 7 em ginástica. Realiza terapia devido ao medo de realizar movimentos para trás na trave, como demonstra a figura 2.

 

caso prático terapia brainspotting
Figura 1

 

 

terapia brainspotting no desporto
Figura 2

 

 

Este medo que bloqueia a sua performance apareceu há 2 anos, pouco depois de ela ter atingido as competências de nível 5 em ginástica, e tem-se intensificado, manifestando-se em outras situações.

 

O bloqueio em realizar movimentos para trás na trave, surgiu misteriosamente num dia de treino rotineiro em que estava a fazer o seu aquecimento com exercícios na trave. Apesar do medo intenso que sentiu, ela esforçou-se por realizar as atividades que o seu treinador lhe pedira (o movimento para trás). Ao colocar a sua mão direita na trave, esta deslizou fazendo-a escorregar da trave e instantes antes de bater com a cabeça no chão ela agarrou a trave com a mão esquerda, impedindo-a de se lesionar. Este evento deixou-a assustada e fê-la pensar que ao realizar o movimento para trás, um deslize das suas mãos poderia fazê-la cair e bater com a cabeça no chão lesionando-se com gravidade.

 

No ano seguinte, Sara continuava a sentir receio para treinar esta habilidade de realizar movimentos para trás na trave, e sempre que buscava coragem para o realizar, frustrava-se e falhava, por pouco não conseguia passar o nível 6, contudo conseguiu realizar o movimento e passou. Contudo, o seu medo tornou-se incapacitante, o que a deixou muito frustrada pois o movimento para trás na trave era básico e ela fora capaz de o realizar.

 

Em terapia brainspotting, foram explorados traumas e lesões desportivas para encontrar eventos e memórias que estivessem a alimentar o medo e bloqueio de performance. No entanto, foi na sua história pessoal que se encontrou a raiz deste medo. Esta ginasta, tivera um pai abusivo (física e emocionalmente) que abandonou a família quando ela tinha 2 anos. Vivia apenas com a mãe e na altura em que estava a aprender o movimento para trás na trave, a mãe sofreu um aneurisma cerebral (o link entre estes dois eventos). Sara lembrava-se de se despedir da mãe com esta a caminho do hospital, pensando que ela morreria da lesão na cabeça, o que lhe provocou um medo intenso. Na sua memória estava a imagem da mãe no chão inconsciente. Um ano após este acontecimento, o seu tio faleceu e lembra-se de olhar para baixo e o ver no caixão aberto, e despedir-se dele.

 

O medo estava bloqueado e conectado entre a sua performance desportiva (movimento para trás na trave) e o medo da perda da mãe e a morte do tio. As imagens/memórias da Sara sobre estes eventos permitiram a localização de um bainspot quando ela olhava para baixo, assim como quando viu a mãe no chão, o tio no caixão, e também quando da trave olhava para o chão. O processamento destas memórias e imagens dos eventos chave, desbloquearam a performance da Sara.

 

Quais as vantagens do Brainspotting?

 

Rápida Evolução: observam-se mudanças a partir da primeira sessão de terapia.

 

Mudança do estado global: devido à sua intervenção focada de consciências trabalha e altera diretamente o sintoma apresentado.

 

Fisiologia: havendo equilíbrio orgânico (cérebro e corpo), a perceção corporal melhora e são otimizados os recursos corporais.

 

Reconhece a capacidade inata do corpo de se automonitorizar, isto permite o processamento e a libertação de áreas (sistemas) que se encontram em desequilíbrio, incluindo a possibilidade de reduzir e/ou eliminar a dor física, e a tensão associada a perturbações psíquicas e físicas.

 

 

Conclusões

 

O brainspotting é uma nova e promissora abordagem psicoterápica que tem sido utilizada no tratamento do trauma. Enfatiza a sintonia relacional entre terapeuta e cliente e a sintonia neurobiológica, com a utilização do olhar direcionado a um brainspot durante o processamento do evento traumático. Esses fatores podem contribuir para que a resposta de orientação bloqueada pelo trauma se complete de maneira integrada e profunda.

 

 

Nota: Este artigo reúne informação de diversas fontes, as principais: Corrigan, F. & Grand, D. (2013); Grand, D. (2013); Para aprofundar o tema, recomenda-se o livro ‘This is your Brain On Sports: Beating Blocks, Slumps and Performance Anxiety for Goog (Grand, D. & Goldberg, A., 2011).

 

 

Liliana Pena – Psicóloga, psicoterapeuta, coach e supervisora clínica na WeCareOn

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