É preciso falar de depressão

É preciso falar de depressão

 

 

Hoje partilhamos um artigo da Débora, que fala de depressão, da sua!

 

”A depressão tem sintomas, ora óbvios ora subtis. Mas não deve ser à toa que a palavra sintoma tem por lá escondido o verbo sentir.

Escrevo desde que me conheço. Para toda a gente ou só para mim, para grupos ou uma pessoa de cada vez. Há quem precise de correr, de cozinhar, de não estar em casa, de ver amigos todos os dias; eu sempre precisei de escrever, mesmo que nem eu própria me lesse.

Durante dois anos, perdi a vontade de fazer uma das coisas que mais me dava prazer. Perdi a conta às vezes em que aconcheguei a almofada atrás de mim e pus o portátil ao colo, para poucos minutos depois fechar tudo e descer a almofada porque não saíra mais do que uma linha. Tentei com cadernos antigos e novos, canetas boas, tentei à noite e de manhã, tentei com velas e com música, em casa e em cafés, de viagem ou onde calhasse. Tentei fugir num inverno em retiro para uma aldeia no sul de uma ilha, quatro dias em que o plano era só escrever

 

E não saía nada.

Nada.

Ao fechar cadernos e baixar ecrãs punha-me em posição fetal e fechava os olhos com força, as lágrimas a fugir pelas ranhuras. Por mais que eu quisesse apagar as emoções elas brotavam confusas por cada poro que encontravam.

Hoje sei que andei dois anos de páginas vazias porque andava a tentar despejar, através da escrita, uma alma que a minha depressão tinha esvaziado.

 

Como um cano entupido ou o trânsito parado. Ali ficamos, bloqueados contra a nossa vontade, o ar a esgotar-se, a visão diminuída para trás e para a frente. No meio desse bloqueio cruzam-se pensamentos de todos os lados, borbulham sentimentos desalinhados e confusos, os dos outros e os meus.

Ainda assim – e para minha miséria – havia clareza nalgumas coisas. Principalmente a clareza dessa mesma miséria. Da minha tristeza, do meu vazio, da minha apatia. Da angústia de não saber articular o que ia cá dentro, de ninguém me entender, de ser ingrata e inútil. E de ter tudo embrulhado num grande papel reluzente de marca Culpa, essa besta que me infernizou.

Às vezes o único alívio era o de desligar o botão; de adormecer e querer acordar a pensar no trabalho ou noutra banalidade qualquer. Conseguia adormecer, mas acordava alertíssima às cinco da manhã e passava os dias cansada.”

 

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Veja o artigo todo aqui.

 

Para saber mais sobre depressão, leia o nosso Guia Prático da Depressão 

 

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