Os meus clientes já sabem que em consulta começamos muitas vezes por investigar o atual processo de regulação emocional, e eu faço, habitualmente, todas aquelas questões já conhecidas por muitos: “como se tem sentido?”, “como foi para si esta semana?”, “o que tem experienciado de diferente estes dias?”, “o que é que o corpo lhe tem dito?”, entre outras perguntas. Todas as sessões fazemos o nosso, já tão conhecido, check-in, com o balanço da semana e as emoções que estiveram presentes. Porquê? Porque tudo isto contribui para uma maior literacia emocional, como eu muito gosto de lhe chamar.

 

As emoções surgem em resposta a um estimulo, quer ele seja externo (i.e., um comentário ou uma critica, por exemplo) ou interno (i.e., à autocrítica, por ex.) e é importante reconhecermos o nosso próprio padrão de reação e de resposta.

 

As emoções com base na sua utilidade e função:

 

Emoção Perceção Própria Impulso
Alegria Ganho | Não perda Aproximação
Tristeza Perda | Encurralamento Retração | Desmobilização
Nojo Toxicidade Afastamento | Expulsão
Medo Perigo | Ameaça Fuga | Luta | Congelamento
Raiva Obstáculo | Injustiça Ataque | Ativação

 

Porque é que nos tentamos proteger das nossas próprias emoções?

 

Imagine o seguinte: e se as dificuldades que sente em gerir as suas emoções atualmente, e os “maus hábitos” que criou surgiram inicialmente para o ajudar ou para o proteger? De uma forma geral, grande parte dos nossos hábitos e comportamentos surgem como estratégia protetora, como um mecanismo de defesa ou de coping. Os mecanismos de defesa ou de coping aparecem para que não sinta de forma tão intensa as emoções que na altura são mais desagradáveis, para atenuar a dor e o sofrimento, é quase como se tentasse desligar-se do que está a sentir, porque se torna insuportável para si, naquele momento.

 

Uma depressão pode surgir porque o cérebro encontrou no isolamento e na tristeza a resposta que precisava para se proteger, inicialmente. O mesmo é válido para o consumo de álcool ou para a autocritica.

 

A grande diferença é que o que funcionou à 2 ou 3 anos atrás pode não estar a funcionar agora e isso pede, por si só, uma mudança. É verdade que alguns hábitos são extremamente eficazes, na altura em que surgem como mecanismo de defesa, pois atenuam a dor, os pensamentos negativos e ajudam-no a criar distância entre o que sente e a realidade. Mas antes que se consiga aperceber disso, o comportamento que inicialmente se fortificou para o proteger, é agora um problema ainda maior do que a dor ou o desconforto que estava a sentir inicialmente.

 

Portanto, as emoções representam diferentes formas de adaptação às mudanças que vão acontecendo na nossa vida, quer seja algo mais pontual ou até mesmo permanente. As emoções surgem em resposta a uma avaliação que é feita do ambiente que nos rodeia, da situação em que nos encontramos e são a resposta adaptativa a essa avaliação que é feita.

 

Resumindo, as emoções, quer sejam elas experienciadas como mais agradáveis ou mais desagradáveis, são aquele guia que nos orienta no dia-a-dia. As emoções foram feitas para ser sentidas, todas elas, porque são importantes e dizem-nos algo acerca de nós mesmos.

 

Deixo aqui um Poema que resume bem o sentir e que simboliza o fluir das emoções dentro de nós:

 

A Casa de Hóspedes – de Rumi

 

O ser humano é uma casa de hóspedes

onde todas as manhãs há uma nova chegada.

Uma alegria, uma depressão, uma mesquinharia,

uma percepção momentânea chega,

como visitantes inesperados.

 

Receba e entretenha a todos!

Mesmo que seja uma multidão de tristezas,

que varre violentamente sua casa

e a esvazia de toda a mobília,

 

ainda assim trate seus hóspedes honradamente.

Eles podem estar te limpando

para a chegada de um novo deleite.

O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,

receba-os sorrindo à porta, e convide-os a entrar.

 

Seja grato a quem vier

porque todos foram enviados

como guias do além.

 

 

Estamos aqui para si.

Filipa Cruz

Filipa Cruz – Psicóloga Clínica, Membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses