As queixas de falta de atenção são das mais frequentes nas consultas de Psiquiatria. Estas queixas podem fazer parte de vários quadros clínicos, sendo muito comuns em casos de ansiedade, depressão e insónia crónica (para conhecer causas comuns de défice de atenção, veja o nosso artigo aqui). Infelizmente, a Perturbação de Hiperatividade / Défice de Atenção (PHDA), que também é uma causa de problemas de atenção, é frequentemente esquecida no adulto.

A PHDA é uma doença que surge invariavelmente na infância. Ainda assim, cerca de dois terços das pessoas afetadas manifestam os sintomas enquanto adultos, muitas vezes com consequências nefastas. Adultos com PHDA têm menos sucesso laboral, mais problemas relacionais (incluindo mais divórcios), mais problemas financeiros e até mais acidentes de viação! Tudo devido à falta de atenção e à impulsividade que, não raras vezes, são tidas como características da personalidade da própria pessoa.

Felizmente, o tratamento da PHDA é dos mais eficazes em Psiquiatria! Com a ajuda do nosso psiquiatra Fábio Monteiro da Silva, descubra quais são os sintomas da PHDA no adulto e como é realizado o diagnóstico.

 

Sou muito distraído(a). Devo suspeitar de PHDA?

 

Muitas vezes, adultos com PHDA não diagnosticada procuram ajuda ao fim de vários anos, com queixas de tristeza, baixa autoestima e desalento consigo mesmos e com o rumo das suas vidas, porque sentem que estão aquém das suas capacidades. Outras vezes, amigos e familiares fazem a pessoa acreditar que é preguiçosa, irresponsável, imatura, caótica, desarrumada, negligente, desinteressada, etc.

Tudo isto acontece porque, apesar de a pessoa até poder ser inteligente e criativa, não consegue terminar as tarefas, não cumpre prazos, atrasa-se, procrastina, esquece recados e compromissos, não consegue gerir o seu tempo eficazmente, perde objetos ou não sabe onde guardou trabalhos importantes, distrai-se em reuniões ou conversas importantes, etc.

Estes são sintomas frequentes de PHDA no adulto, que infelizmente tendem a confundir-se com a própria personalidade da pessoa. No entanto, a culpa não é da pessoa, mas de uma perturbação que não foi identificada e devidamente tratada!

Muitas pessoas atingem estados de cansaço e de burnout graves porque, devido ao défice de atenção, esforçam-se muito mais que qualquer outra pessoa para atingir os mesmos resultados. Por exemplo, um paciente com PHDA diagnosticado já na idade adulta partilhava as suas dificuldades da seguinte forma, muito ilustrativa: “A maior parte das pessoas, quando quer ir do primeiro para o segundo andar, vai pelas escadas rolantes que sobem. No meu caso, sempre me senti como se tivesse de ir do primeiro para o segundo andar pelas escadas rolantes que descem! Ou seja, com o triplo do esforço…”.

Assim, se é distraído, “cabeça no ar” ou “vive nas nuvens” desde criança e sente que em adulto estas características continuam a provocar-lhe problemas, é possível que tenha PHDA.

 

Quais são os sintomas de PHDA no adulto?

 

De acordo com a Associação Americana de Psiquiatria, deve existir um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade que interfere no funcionamento, conforme caracterizado por (1) e/ou (2):

 

(1) Sintomas do Grupo da Desatenção:

 

Devem estar presentes cinco (ou mais) dos seguintes sintomas, por pelo menos seis meses, num grau que condiciona um impacto negativo direto nas atividades sociais e académicas/profissionais:

  1. Não presta atenção a detalhes ou comete erros por descuido em tarefas no trabalho ou durante outras atividades (p. ex., negligencia ou deixa passar detalhes, o trabalho é impreciso).
  2. Tem dificuldade em manter a atenção em tarefas ou atividades (p. ex., dificuldade em manter o foco durante reuniões, conversas ou leituras prolongadas).
  3. Parece não ouvir quando alguém lhe dirige a palavra diretamente (p. ex., parece estar com a cabeça longe, mesmo na ausência de qualquer distração óbvia).
  4. Não segue instruções até o fim e não consegue terminar tarefas no local de trabalho (p. ex., começa as tarefas, mas rapidamente perde o foco e facilmente perde o rumo).
  5. Tem dificuldade em organizar tarefas e atividades (p. ex., dificuldade em gerir tarefas sequenciais; dificuldade em manter materiais e objetos pessoais em ordem; trabalho desorganizado e desleixado; má gestão do tempo; dificuldade em cumprir prazos).
  6. Evita, não gosta ou reluta em envolver-se em tarefas que exijam esforço mental prolongado (p. ex., preparação de relatórios, preenchimento de formulários, revisão de trabalhos longos).
  7. Perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (p. ex., carteiras, chaves, documentos, óculos, telemóvel).
  8. É facilmente distraído por estímulos externos (ou pelos próprios pensamentos).
  9. É esquecido em relação a atividades quotidianas (p. ex., realizar tarefas e obrigações; devolver chamadas, pagar contas, manter horários agendados).

 

(2) Sintomas do grupo da Hiperatividade-Impulsividade:

 

Devem estar presentes cinco (ou mais) dos seguintes sintomas, por pelo menos seis meses, num grau que condiciona um impacto negativo direto nas atividades sociais e académicas/profissionais:

  1. Remexe ou bate frequentemente com as mãos ou os pés ou contorce-se na cadeira.
  2. Levanta-se frequentemente da cadeira em situações em que se espera que permaneça sentado (p. ex., no escritório ou noutro local de trabalho ou em outras situações que exijam que se permaneça num mesmo lugar).
  3. Tem com frequência uma sensação intensa de inquietude.
  4. É frequentemente incapaz de se envolver em atividades de lazer calmamente.
  5. Age frequentemente como se estivesse “com o motor ligado” (p. ex., sente-se desconfortável em ficar parado por muito tempo, como em restaurantes ou reuniões; outros podem ver o indivíduo como inquieto ou difícil de acompanhar).
  6. Frequentemente fala demais.
  7. Frequentemente, deixa escapar uma resposta antes que a pergunta tenha sido concluída (p. ex., termina frases dos outros, não consegue aguardar a vez de falar).
  8. Tem dificuldade para esperar pela sua vez (p. ex., aguardar numa fila).
  9. Frequentemente interrompe ou intromete-se (p. ex., mete-se em conversas; pode começar a usar as coisas de outras pessoas sem pedir ou receber permissão; pode intrometer-se em ou assumir o controle de coisas que os outros estão a fazer).

 

Apesar de não fazerem parte dos critérios de diagnóstico oficiais, a PHDA no adulto pode manifestar-se através de outros sintomas, nomeadamente:

 

  • Hiperfoco: na realidade, a PHDA é mais uma doença em que há uma desregulação da atenção, ao invés de apenas um défice. As pessoas com PHDA por vezes focam-se de forma excessivamente intensa numa única atividade, ignorando estímulos paralelos. Este fenómeno é conhecido por hiperfoco. Ao focarem-se excessivamente num jogo, por exemplo, podem não ouvir outras pessoas a chamar o seu nome, ou não ouvir o telefone a tocar. Como consequência, são por vezes injustamente apelidadas de egoístas ou criticadas porque “para o que lhes interessa já têm atenção”;

 

  • Desregulação emocional: fruto da impulsividade e da falta de atenção causadas pela doença, muitas vezes há também uma dificuldade em gerir as próprias emoções. Pessoas com PHDA podem ter ataques de raiva ou ser muito irritáveis.

 

Como é feito o diagnóstico de PHDA no adulto?

 

Perante a suspeita de PHDA no adulto, o seu psiquiatra pode começar por lhe fazer algumas perguntas de rastreio. A Escala de Autoavaliação da PHDA para o Adulto foi desenvolvida por investigadores na área da saúde mental em conjunto com a Organização Mundial de Saúde, sendo frequentemente utilizada.

Confirmada a suspeita, e para um diagnóstico mais detalhado, pode, então, ser necessário o uso de uma entrevista diagnóstica mais longa, como a DIVA (The Diagnostic Interview for ADHD in Adults). O relato de uma terceira pessoa, geralmente um cuidador da infância, é por vezes necessário.

 

Para o diagnóstico, o médico necessita ainda de garantir que:

  1. Estão presentes sintomas em quantidade e intensidade suficiente para provocar impacto no normal funcionamento da pessoa;
  2. Pelo menos alguns sintomas estão presentes desde a infância (antes dos 12 anos);
  3. Os sintomas estão presentes em vários contextos, por exemplo, no trabalho, nas relações, nas atividades de lazer, em casa, etc.;
  4. Há clara evidência de que os sintomas interferem com o funcionamento social, ocupacional ou académico da pessoa;
  5. Os sintomas não são melhor explicados por outra perturbação, por exemplo pelo consumos de drogas ou por uma perturbação depressiva ou de ansiedade (para conhecer outras causas comuns de défice de atenção, veja o nosso artigo aqui).

 

O diagnóstico é clínico (ou seja, realizado pela história clínica e pelo exame do estado mental), não sendo necessária a realização de exames auxiliares de diagnóstico, como análises ao sangue ou exames de imagem cerebral. No entanto, em certas situações, o seu médico pode pedir exames para excluir outras doenças que se possam parecer com a PHDA, como hipertiroidismo ou certas lesões cerebrais.

 

Quais são os vários tipos de PHDA?

 

Para nos ajudar a perceber melhor como a PHDA se manifesta, podemos dividi-la em três subtipos diferentes:

  1. Desatento: quando estão presentes os critérios de diagnóstico do grupo 1 (sintomas de desatenção), mas não do grupo 2 (sintomas de hiperatividade e impulsividade)
  2. Hiperativo-impulsivo: quando estão presentes os critérios de diagnóstico do grupo 2 (sintomas de hiperatividade e impulsividade), mas não os do grupo 1 (sintomas de desatenção)
  3. Combinado: quando estão presentes os critérios de diagnóstico dos grupos 1 (sintomas de desatenção) e 2 (sintomas de hiperatividade e impulsividade)

No adulto, é mais comum o predomínio de sintomas de desatenção em relação aos sintomas de hiperatividade e impulsividade.

 

O que acontece depois do diagnóstico?

 

Após o diagnóstico, o médico psiquiatra discute consigo formas de conhecer melhor a doença e os seus sintomas (alguém que sofre de PHDA deve tornar-se, ele/ela mesmo(a), um especialista em PHDA!) e os tratamentos atualmente disponíveis. Os tratamentos incluem, quase sempre, o uso de medicação específica (metilfenidato, lisdexanfetamina, entre outros).

Para usar a medicação com segurança, é necessário conhecer os efeitos laterais mais importantes, como aumento da frequência cardíaca e tensão arterial e diminuição do apetite. Se tem uma perturbação de ansiedade não controlada, pode ser importante controlar a ansiedade antes de iniciar a medicação. Da mesma forma, é importante encontra-se abstinente de consumos de álcool, canabinóides ou outras substâncias. O seu psiquiatra e/ou o seu psicólogo podem ajudá-lo nestas conquistas.

Paralelamente, pode ser necessário recorrer a psicoterapia para ajudá-lo a desenvolver competências de organização de tarefas e de gestão de tempo. Hoje em dia, há também várias apps que podem ajudá-lo a organizar-se melhor nos seus compromissos e tarefas e ajudá-lo a cumprir prazos.

Se suspeita ter défice de atenção, então, não sofra em silêncio. Procure ajuda profissional para ter um diagnóstico correto e para ter acesso aos melhores tratamentos disponíveis.

 

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Fábio Monteiro da Silva –  Psiquiatra e Psicoterapeuta @ WeCareOn